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terça-feira, 2 de junho de 2026

PIEDADE


“Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude” (2 Pe 1.3)

Nós precisamos ser conduzidos. Na verdade, necessitamos buscar diariamente a sabedoria e a força para viver a jornada de um dia. Quando oramos a petição: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje”, estamos suplicando a porção diária para a manutenção física, que o Senhor se compromete a dar a seus filhos. Porém, também necessitamos do alimento espiritual necessário, recebendo-o nas misericórdias do Senhor que se removam a cada manhã. Em tudo precisamos ser orientados e modelados. Um prerrequisito indispensável para não dirigirmos, nós mesmos, nossa vida, é a submissão à vontade do Senhor, isto é, abrir mão de nossos próprios desejos e clamar ao Senhor que a vontade dele, e não a nossa, se realize. Essa deve ser a nossa “única” oração, o pedido que perpassa a todos os nossos clamores. Quando rogamos: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus”, nós confessamos desconfiar de nossa própria vontade e confiar unicamente na vontade do Senhor, qualquer que seja ela. Renunciamos a qualquer desejo para nos alegrar tão-somente no propósito de Deus.

Algo que se vê com clareza cristalina na atual legião de cristãos é a não compreensão daquilo que significa ser um discípulo de Cristo. Na verdade, nota-se uma visão assistencialista quanto ao próprio exercício religioso. Tem-se no evangelho uma espécie de apoio à própria vida. Colocando isso de outra forma, eu dirijo minha vida, estabeleço meus alvos, e busco em Deus forças para alcançá-los. Nunca se viu tanto a utilização da palavra “sonhos” no vocabulário cristão como em nossos dias. Outras vezes, transforma-se a igreja em lugar de realização pessoal, espaço onde posso liderar, cantar, ensinar, realizar-me pessoalmente, de uma forma que não encontro em nenhum outro lugar. A Comunidade dos Santos se torna um CVV, Centro de Valorização da Vida. Dessa forma, assumindo o modelo do mais puro pragmatismo ou utilitarismo da fé, o cristianismo de muitos não passa de a busca da realização pessoal, de ter um propósito que vá além da carreira profissional, uma religião de homens para a satisfação dos próprios pecadores, tendo como ênfase sempre a presente existência.

O homem passa a ser o centro da adoração e não Deus. Perdeu-se qualquer senso de serviço do Senhor. Mesmo quando ele ocorre é como clara tentativa de manipular a divindade, objetivando agradá-la a fim de se alcançar dela o que se pretende. Esse mau uso da verdade bíblica acarreta a perda daquilo que é verdadeiramente importante, pois, de fato, o crente tem um tesouro em Cristo, mas não relativo às riquezas dessa terra, mas à piedade, à vida com o Senhor. Diante da qualidade de vida espiritual tão baixa, o alvo de uma vida transformada, a vivência de Cristo a cada dia, são vistos como coisas circunscritas ao campo do onírico e inalcançável. Deus não exige de nós nada impossível. No entanto, boa parte dos crentes hodiernos vê a proposta de vida cristã conforme exposta nas Escrituras como uma utopia. Dessa forma, reconhecem a beleza e a profundidade da mensagem, que realmente são palavras divinas, mas acreditam que não são aplicáveis à existência humana. Percebem o ensinamento bíblico mais como espécie de “inspiração”, não no sentido teológico, mas motivacional. Não concebem que um ser-humano possa viver a sublimidade da proposta de vida cristã. Assim, a santidade é tida como um ideal inalcançável, levando os chamados crentes a conceberem e assumirem um comportamento ímpio “melhorado” como padrão. Trata-se, apenas, da aplicação de verniz ao modelo de vida de um não-salvo.

Perdeu-se a autenticidade da piedade e da vida cristãs. A piedade genuína está no centro da experiência cristã sincera. A palavra “sinceridade” vem da expressão latina “Sine cera”, ou seja, “sem cera”. Tal expressão identificava os vasos romanos que não tinham rachaduras ou imperfeições maquiadas com “cera”. É verdade que a perfeição jamais será vivida enquanto na presente vida. Contudo, a vida em santidade que o Senhor espera de nós é o “selo de qualidade” de nossa conversão, aquilo que mostra que verdadeiramente somos salvos. Muitos confundem santidade com “disfarce”, a ocultação do seu verdadeiro “eu” para que os outros não percebem quem se é realmente. Santidade não é esconder ou disfarçar os próprios erros da vista dos outros, mas não ter erros para esconder ou disfarçar. Ao invés de esconder seu verdadeiro “eu”, o crente quererá manifestar sua nova natureza, a beleza do seu relacionamento com Deus e a verdadeira paz e segurança que preenchem seu coração. O salvo é aquele que ama a Lei de Deus e se dedica a obedecer aos mandamentos de coração, não apenas exteriormente. Quanto mais perto do ideal perfeito chegarmos, melhor.

Contudo, o próprio Deus sabe que não conseguiremos viver sem pecar, fato percebido na necessidade de Jesus ter morrido em nosso lugar. As palavras transcritas acima pela pena do apóstolo Pedro asseveram que não é pelo poder humano que somos habilitados a uma vida agradável a Deus, mas pelo poder divino. É o Senhor quem efetua em nós as transformações necessárias, fazendo-nos experimentar as realidades maravilhosas do fruto do Espírito. Está em nós o poder para a vida e a piedade, para a santidade e a devoção a Deus. No entanto, entendamos que tais realidades são resultado do conhecimento completo de Cristo. Isso implica o estudo constante das Escrituras, único meio de conhecimento verdadeiro de Jesus e de como nos relacionamos com ele. Só se conhece a Cristo buscando contato diário. Dessa forma, vivendo a genuína piedade, o poder do seu Espírito se manifestará em nossa vida, não apenas nos modelando a fim de produzir em nós um homem segundo Cristo, mas também nos habilitando à verdadeira paz e segurança, o genuíno tesouro espiritual do crente para esta terra. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus 

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