“Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto” (Sl 32.1).
O primeiro sentimento que o homem caído teve diante de Deus foi medo. Após desobedecer ao Criador, percebeu a vulnerabilidade típica do desamparo de Deus, da suposta autonomia humana, o desespero do pecado após a euforia da cobiça. A experiência do primeiro homem com o pecado foi radicalmente diferente daquilo que temos hoje. Como seres humanos caídos, o pecado está em nós. Não há homem sem pecado e não há pecado a não ser pela agência do homem. No entanto, quando Adão decidiu pecar foi sem qualquer influência do pecado.
Podemos dizer, como pensava Agostinho, que a vida do homem perfeito era regida pela razão. Nesse estado, mesmo as emoções e sentimentos eram decisões. O homem resolvia se emocionar, querer, sentir. A partir da queda, diz Agostinho, os desejos e emoções passaram a afetar diretamente a razão a ponto de, até mesmo, determiná-la às vezes. Dessa forma, o pecado original não foi despertado pela cobiça, mas sim o despertar da cobiça. Adão decidiu, por sua livre razão e vontade, pecar, o que imediatamente trouxe a cobiça para a experiência do ser humano. A partir de então, passou a ser o veículo do pecado.
O pecado não está simplesmente em nosso exterior, mas dentro de nós, originado no coração. Portanto, quando o primeiro casal recém-caído percebeu a presença de Deus se aproximando, por puro medo se escondeu. É o desamparo existencial! Antes, na vida em conformidade com o Criador, vivia Deus. Porém agora homem e mulher vivem a si mesmos, a solidão existencial de ser um pecador. Cada pecador é uma unidade existencial, perdendo totalmente a capacidade natural de viver como "corpo". Não se trata simplesmente de experiência coletiva, na qual se amontoam várias pessoas, mas verdadeiramente existir integrado, uma espécie de simbiose de em única vida coletiva.
A vida coletiva na experiência do homem caído sempre significará sacrificar algo. Mesmo a vida conjugal requer anulação em algum sentido, para que seja possível a convivência. A queda não trouxe "apenas" a separação entre o homem e Deus, mas também entre o homem e seu igual. Separado de tudo e de todos, o ser humano experimenta solidão existencial, desamparo. É simplesmente inimaginável pensar o que foi o sentimento da queda, o momento no qual o primeiro casal percebeu-se pecador. Foi algo brutal, existência rasgada, eternidade dilacerada transformada em tempo que passa. Foi inversamente proporcional àquilo que experimentarão os eleitos que estiverem vivos no retorno de Cristo. Seus corpos serão transformados ao padrão de incorruptibilidade, morte e ressurreição no mesmo momento, tendo a alma já santificada e consagrada ao Senhor. A intensidade do horror do sentimento da queda será experimentada, mas em percurso inverso, agora no sentido da glória, partindo da condição de pecadores à perfeita união com o Criador.
Em nossa presente condição, como eleitos de Deus, desfrutamos da expiação. É ela que mais manifesta a paz de Deus em nosso coração, o antídoto para todo medo. O primeiro casal temeu por saber que não era possível retroceder e esconder o seu pecado. No entanto, o Senhor fez exatamente isso por nós na cruz de Cristo. O termo traduzido como "encoberto" no verso epigrafado, no hebraico, liga-se tematicamente ao significado da expressão "Dia da Expiação". Este era a principal data do calendário hebraico, mais importante mesmo que Páscoa, Tabernáculos e Pentecostes. Na cerimônia eram utilizados dois bodes. O primeiro era o "bode expiatório", cujo sangue seria aspergido na tampa da arca da aliança, chamada "propiciatório", no Santo dos Santos. O outro era o "bode emissário", que seria solto no deserto. O primeiro, pagava a dívida de sangue que todo homem contrai por seus atos, desde a queda. O segundo, significava o “esquecimento de Deus”.
Certamente, mesmo tendo nossos pecados cancelados na cruz, a memória do que somos e fazemos continuaria constantemente diante do Senhor. No entanto, o próprio Deus afasta a visão, a memória, de nosso pecado, encobrindo-a, afastando-a de si. Nesse sentido, para Deus o perdão inclui o esquecimento. Seguramente, não existe amnésia divina. Significa que o Senhor, mesmo sabendo que somos pecadores, não nos considera e não nos trata como tal. É maravilhoso viver na perspectiva da “aprovação” de Deus, quando, embora pecadores, confiamos na absolvição advinda do sacrifício do Cordeiro de Deus, não havendo em nossa vida qualquer opção por viver em pecado, apenas pecados ocasionais devido à nossa fraqueza.
Como nascidos da água e do Espírito, temos a liberdade de viver para o Senhor, sem medos ou preocupações, por termos plenamente as certezas da fé. Confessemos sempre nossos pecados, nossas fraquezas, ao Senhor, vivendo exclusivamente na dependência dele. Temos que ter nossa consciência tranquila, esvaziada de pecados, sintonizada constantemente ao Senhor. Viva diuturnamente a alegria do perdão. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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