“O Senhor é o meu pastor; nada me faltará” (Sl 23.1).
“Pertencimento” é um conceito bastante conhecido e citado nas ciências humanas, especialmente na antropologia e na sociologia. Trata-se de uma necessidade de todo ser humano de ser acolhido por um determinado grupo social. O conceito de identidade se estabelece como pré-requisito indispensável, pois define, especifica e reconhece aquilo que se harmoniza ao que somos e à soma de nossos anseios. Se estivermos em um grupo com o qual não nos identificamos, não tardará nos sentirmos solitários mesmo entre pessoas que conhecemos.
É indiscutível que ambos os conceitos se aplicam à igreja e integram o princípio bíblico da comunhão. No entanto, esta não está baseada principalmente em nossos anseios ou em percepções quanto à própria vida, mas naquilo que já experimentamos como obra que só o Espírito de Deus realiza em nosso coração. O que nos traz a experiência prática da unidade, o que poderíamos dizer ser a soma do pertencimento com a identidade, é a vivência que tem todos os eleitos dos mesmos pilares em seu homem interior, isto é, a mesma obra de Deus na alma: “há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Ef 4.4-6).
Se desviarmos nossos olhos disso, procuraremos a experiência da unidade em vivências meramente humanas, não espirituais. Colocando isso de outra forma, significa dizer que buscamos a satisfação interior nas mesmas coisas que aqueles que não conhecem a Jesus. Ora, o que Deus faz é real e consistente, duradouro; o que buscam os homens é fugaz e ilusório, passageiro.
Geralmente, quando já estamos inseridos em um grupo social e começamos a sentir falta de identidade e, consequentemente, também de pertencimento, geralmente tal se dá como resultado de um ou mais episódios que nos desagradaram. Falando-se especificamente do ambiente da igreja, a falta da experiência da unidade, da própria comunhão, comumente é resultante de algum episódio de intriga e atrito entre irmãos, algo que indevidamente passamos a projetar sobre o todo.
Dizendo isso de outra maneira, tornamos a experiência particular no sentimento que tenho quanto ao coletivo. Por mais que tenha sido dura a realidade do atrito, é muito improvável que ela se estenda a todos os relacionamentos da igreja ou que expresse a qualidade do contato com a maioria dos irmãos. É natural ao coração humano tais projeções, pois não aceitamos facilmente qualquer humilhação ou supostas injustiças.
Há nisso algo digno de nota. Quando estamos próximos de pessoas, que julgamos terem por nós algum respeito e consideração, e se mostram de alguma forma desfavoráveis ou oponentes em determinadas questões, sentimo-nos como que traídos e desiludidos, o desvanecer de uma lealdade que só existiu como certeza no nosso coração. É nos atritos e dificuldades que conhecemos verdadeiramente aqueles que estão próximos, que chamamos de irmãos, que será externado realmente aquilo que pensam.
Quantas vezes não nos surpreendemos com palavras e atitudes que significam para nós enormes decepções! Certamente, tal experiência tende a ser recíproca, pois o atrito já denuncia diferentes opiniões sobre assuntos e acontecimentos, o que me faz compreender que a mesma decepção que experimento também estão experimentando quanto a mim aqueles com quem contendi. Será proporcional ao grau de divergência que cada um viveu na querela específica.
Outra coisa que é importante ser destacada é que os sentimentos negativos tendem a ser mais intensos e considerados do que os que nos trouxeram edificação e comunhão. Basta um único atrito, uma situação mal resolvida, para esquecermos todas as bênçãos já vividas na preciosa comunhão em uma igreja. Diante do pecado de Adão, Deus mostra sua opção pela vida; diante da vida oferecida por Deus, o homem escolhe a morte, a separação, a solidão do pecado.
Temos que valorizar os melhores momentos, a alegria da experiência da unidade já consumada, verdadeira identidade e pertencimento, ou invés de condenarmos toda uma história vivida devido a alguns acontecimentos desastrosos. Pode ser que a insatisfação não seja causada por eventos negativos consistentes, relevantes e destacados, mas pela somatória de várias inconformidades, que acumuladas e represadas, resultaram notável mal-estar na alma.
No entanto, qualquer que seja o caso, temos em Jesus mais do que suficiente para suplantar todas essas coisas. Habacuque afirmou: “Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé” (Hc 2.4). Antevendo as dores e terríveis dificuldades do exílio, o profeta indica a fé como único caminho para suportar e suplantar todas as dificuldades. Davi, como atesta o texto epigrafado, nos ensina que, no relacionamento com Yahweh e reconhecendo as suas provisões, conseguimos conviver com aquilo que nos faz falta. Eis aí o principal! Se estivermos firmes com Deus todas as demais coisas se tornam pequenas, tanto as boas quanto as ruins! Não me apegarei exageradamente àquelas, como que enredado e cativo, e não me deixarei abater por estas, desanimado e fracassado.
Deus acima de tudo! Ele é o meu tesouro. A comunhão com Jesus, a minha vida. Se experimentamos a exuberância de nossa união com Cristo estarei apto a viver a unidade em qualquer igreja fiel. Não haverá impedimentos. Quando começo a me sentir sozinho em uma igreja que prega com fidelidade a sã doutrina é porque alguma coisa está me levando a fraquejar na fé e passo a ver a igreja como a causa. É necessário buscar com mais intensidade o Senhor e sentir sua proximidade. Apenas isso restaurará a alegria. Tenha um abençoado dia na companhia de Cristo
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