5O cinismo se alastra em meio a falas contraditórias. Os argumentos se chocam sob a bandeira da desfaçatez. As motivações, sob suspeita, estão achincalhadas.
O país precisa reaprender a conversar. Os argumentos não podem vencer no grito. A defesa do direito não precisa tornar-se virulenta.
Argumentação alguma merece resvalar para o desejo de destruir o outro.
Fico aturdido com o ambiente hostil que paira sobre o Brasil. Ando pasmo com o extremismo partidário.
As pessoas se radicalizaram e parecem querer se consumir como uma serpente que devora a si pela própria cauda.
Mas o pior cenário talvez nem seja essa autofagia. Pior será com o vírus da indiferença.
Relembro Vinicius de Moraes nesses tempos difíceis. Ele escreveu a um jovem afogado em desencanto:
“’O Outro’, não preciso dizer, é você próprio. É o súcubo que, todos, temos dentro de nós; o ser calhorda, comprável com a moeda da mentira e da lisonja, que de repente adota a gratuidade como norma, por isso que a paixão é mais insaciável que o infinito aberto em cima”.
Não há como exorcizar os demônios que pairam sobre o país sem que algumas virtudes, agora fora de moda, sejam resgatadas: humildade, integridade, lealdade, gentileza.
Os fantasmas que nos atormentam foram atiçados pela volúpia do poder, pela ganância do dinheiro e pela sordidez do roubo puro e simples.
O povo sofre sem cuidado médico de qualidade. O ensino público mingua. Facções criminosas se digladiam. Faltam creches. Mais da metade dos brasileiros não tem saneamento básico (esgoto). A pesquisa científica padece, sem investimentos. As universidades estão degradadas.
Não nos percamos nas questiúnculas que só servem para atiçar os ânimos - o Diabo mora nos detalhes.
Sei que meu apelo soa infantil. Brasileiros, resta-nos deitar as armas, as pedras, e celebrar quem vive com integridade e doçura. Não nos restam muitos caminhos. Se não cuidarmos, o pior está por vir
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