“Como jaz solitária a cidade outrora populosa! Tornou-se como viúva a que foi grande entre as nações; a princesa entre as províncias, ficou sujeita a trabalhos forçados” (Lm 1.1).
Há algum tempo, houve uma heresia que afirmava a solidão de Deus. Para alguns maus entendedores das Escrituras, o Senhor criou todas as coisas, especialmente os seres morais, devido à grande solidão que ele vivia. Dessa forma, a existência, como atributo exclusivo de Deus, era também a sua mais completa solidão. Contudo, solidão é uma necessidade, algo que está fora de qualquer realidade divina. Deus se basta! Não precisa de nada e de ninguém. Ele, de fato, é o único que poderia existir sozinho, sem necessitar de qualquer companhia. Além de sua asseidade, sua capacidade de bastar-se a si mesmo, de nada carecer, de prescindir de qualquer coisa, o conceito de solidão é inaplicável a um ser plural. Deus é um, único em seu ser, todavia constituído de três pessoas, três consciências distintas, que interagem em uma mesma existência. Pai, Filho e Espírito Santo, iguais em poder e glória, sempre concordam em vontade.
A existência plural do Senhor é traduzida para a fisicalidade na figura do casamento, quando dois seres físicos se tornam uma só carne, mais uma faceta da imagem e semelhança de Deus na humanidade. Apenas criaturas podem experimentar solidão, e isso, como consequência da queda, jamais o Criador. Em estado de perfeição, o homem precisava de outros seres semelhantes a ele, o que não pôde encontrar ao passar em revista a todos os seres físicos criados. Tal falta, deliberadamente permitida por Deus, visava oportunizar a criação da mulher, a partir do homem. Ela é sua própria carne, ossos e sangue. Todavia, não seria possível dizer que o homem experimentava solidão, pois Deus habitava plenamente seu coração. Além disso, todos os dias o Criador se manifestava visível e pessoalmente a Adão, e conversava longamente com ele. O Deus que conhece e determina todas as coisas gostosamente “se senta” com o homem à cada tarde para conversar sobre o dia e as realizações humanas.
Deus não criou todas as coisas por se sentir sozinho, mas por pura bondade, para dar ocasião a muitos seres existirem. Como nada tem capacidade de existir por si mesmo, o Senhor como que empresta sua existência a tudo, sendo correto, assim, dizer que tudo existe em Deus. Reparemos, portanto, que a solidão é algo típico de um mundo caído, de seres morais afastados do Criador, que vivem em revolta contra ele. O homem constituía uma espécie de unidade com Deus e com tudo o que foi criado. Obviamente, não participava da divindade, mas estava unido ao Senhor e Criador de todas as coisas. Dessa maneira, a criação original previa uma verdadeira vida em união com Deus e integrado a toda a Criação. Porém, tornado pecador, o ser-humano é como uma ilha no oceano da existência. Sua unidade deixou de ser uma interação de alma, passando a ser apenas momentos e, ainda assim, limitados à presença física. A solidão passou a ser a ausência de pessoas com quem se tem alguma afinidade. No estado original a humanidade encontraria plena afinidade entre todos os seus integrantes, tendo o Criador como o grande catalisador da união. Na queda, assumindo o contorno de um deus para si, cada homem tem enorme dificuldade em viver de forma integrada a outra pessoa. Mesmo na experiência do casamento, que é aquela de maior integração entre homem e mulher, para alguns também significa algo de solidão.
Percebamos, assim, como a obra de Deus em Cristo é nos trazer novamente para sua presença pessoal. De igual forma, entenda que ser um pecador é viver a solidão essencial, sozinhos de alma, enquanto Cristo não habitar o coração do ser-humano. A vida no estado de pecado, levada às últimas consequências, é o inferno, a experiência da mais absoluta solidão, ausência completa da graça divina. Isso também nos leva a compreender por que o inferno que Jesus experimentou na cruz foi sua solidão completa: o abandono do Pai. Jesus foi abandonado na cruz por algum tempo para que nós não fôssemos eternamente abandonados. Todavia, mesmo consciente de tão grande amor demonstrado, por vezes seu próprio povo busca a solidão, o afastamento. Deus, no seu trono, olha para os filhos dos homens e não encontra um justo sequer. O ser-humano optou pelo pecado, pela louca e impossível autonomia, por se revoltar contra aquele que o criou e o sustenta. Diga-me se isso não é a mais completa loucura. O oferecimento das melhores coisas é desprezado em favor da busca das coisas que atraem o prejuízo para a própria vida.
O homem, tão frágil e passageiro, busca viver como um deus, no caso, divindade fraca e mortal, mesquinha e cheia de mazelas, que não pode garantir, nem mesmo, sua própria vida. Embora essa seja uma leitura do homem natural, infelizmente isso também caracteriza, por vezes, a vida do próprio povo de Deus. Influenciados pelo mundo e instigados pelo pecado pessoal, acabam por imitar o comportamento daqueles que vivem para si mesmos. Eis a causa do profundo lamento do Deus verdadeiro. As lágrimas que rolaram da face de Cristo diante de Jerusalém manifestam o desagrado de Deus de tantas vezes de outrora. É importante que compreendamos que não é Deus quem abandona o seu povo, mas o povo é quem abandona ao seu Senhor. A situação de Jeremias era a pior possível. Ele não apenas profetizou a ida ao exílio, o cativeiro na Babilônia, como também foi um dos desterrados. Foi levado cativo à terra estranha, impedido de adorar no Templo (que, aliás, ficou destruído), perdeu sua família e todos os seus bens.
A descrição de Jerusalém é aterradora! Cidade outrora viva e populosa, agora estava deserta e destruída. Os que ficaram foram os que não “prestavam” nem mesmo para o trabalho. Dominada por oportunistas estrangeiros, passou a servir mais de covil do que de cidade com sociedade organizada. É sugestiva a figura empregada pelo profeta: uma viúva. Jerusalém era tal qual uma viúva de sua época. Diferente de nossos dias, a viuvez era sinônimo de todo desamparo e fragilidade. Não aludia apenas à mulher cujo marido havia falecido, mas denotava a perda de todo o sustento, habitação e acolhimento. Em outras palavras, indicava a mulher idosa que não havia tido filhos no matrimônio ou já não os tivesse, e que, sem marido, não tinha como sobreviver. Agora, jazia como mendiga a depender do pão de outros. Além disso, outra metáfora utilizada por Jeremias é a de princesa que se tornou escrava. Não havia maior desolação para ela do que, além de perder a majestade, tornar-se serva de uma nação que se apossou do povo ao qual pertencia. De senhora de todos, passa a ser escrava. Três são as características de alguém afastado de Deus: solidão, desamparo e servidão.
Entendendo estas verdades à luz do Novo Testamento e da realidade da vida espiritual, o vazio de alma de alguém afastado de Deus se expressa primeiramente no sentimento de solidão, separada de Deus e da família da fé. Está desassistida das graças e do favor da comunhão com o Senhor, o que mostra seu pleno desamparo. Está novamente em uma vida de tristeza, de privação de suas posses espirituais, sujeita aos ditames do mundo. Esta é sua escravidão. Foi por isso que Jesus chorou à vista de Jerusalém. Percebeu exatamente esta realidade no povo a quem amava. Isto nos leva a refletir: o que será que Deus vê em nós hoje? Ao olhar para a sua vida, qual será a conclusão? Uma vida de comunhão abundante com o Senhor e sua igreja, suprida pelas graças de Deus, liberta do mundo e do pecado? Ou será a visão aterradora da solidão, do desamparo e da servidão – vazio de alma? Deus tem para nós uma vida abundante. Entreguemo-nos completamente ao relacionamento com ele, em toda fidelidade e obediência. Creia e descanse no amparo do Senhor, se você busca viver obedientemente. O Senhor não desampara seus filhos. Age por todos os meios, naturais e sobrenaturais, para cumprir seu propósito para abençoar seu povo. Você jamais está sozinho! Cristo e seu Santo Espírito habitam seu coração. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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