Em meus solilóquios e meditações insones madrugadas adentro, consigo detectar dores que me acompanham desde os verdes anos.
Adolescente, senti vergonha de meu pai, um preso político. Sua condição era um segredo semipúblico.
Naqueles dias, ganhar o rótulo de “subversivo” era um estigma social, uma vergonha.
Convivi com esse constrangimento: o bairro sabia, mas ninguém comentava.
Empobrecemos. Mamãe se viu obrigada a volta a morar com meus avós maternos. A casa de vila, minúscula, tinha dois pequenos quartos e um banheiro. Mamãe e nós, os filhos, somávamos sete.
Resultado: por anos, dormi numa rede pendurada na sala de visita (um drama para qualquer adolescente necessitado de privacidade). Eu mesmo estendia a rede depois que a casa se aquietava. Resultado: era o último a dormir todas as noites e o primeiro a me levantar em cada manhã.
Mamãe, grávida de gêmeos, aguardava a volta de meu pai, preso incomunicável numa cela da Base Aérea do Galeão. O parto foi uma tragédia. A menina morreu dois dias depois de nascida.
Hoje entendo a razão de não ter aprendido a dançar. Imaginava que as namoradinhas me censurariam por errar o ritmo.
Tornei um introvertido. O vexame de ser filho de um preso político ainda hoje me inibe de pisar em pés alheios.
Escrevo como terapia na esperança que os textos compensem minha inaptidão musical; e que minha literatura tenha força de reavivar a lacuna de uma adolescência sabotada.
Chego à madureza com sede de viver. Casei-me com a paixão da minha juventude. Vivo feliz com meus filhos e netos.
Não escondo, porém: guardo no peito a saudade de um tempo que nunca vivi. Sei que jamais recobrarei experiências perdidas. Chamo de melancolia a saudade do vazio que o tempo e as pessoas não conseguiriam preencher.
Continuo a escrever porque ainda não saciei por completo o desejo alucinado redimir o tempo que já se foi.
E caso não consiga renascer o passado, aprendo a transformar cada novo instante em uma eternidade.
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