Habacuque 1:2-4
Até quando, Senhor?
Existem perguntas que não nascem da incredulidade, mas de uma fé que já não consegue conciliar o que conhece sobre Deus com aquilo que contempla na realidade.
Habacuque viveu em um dos períodos mais turbulentos de Judá. A violência se multiplicava, a justiça perdia sua integridade e a lei, que deveria proteger o justo, parecia incapaz de cumprir sua função. O ímpio cercava o justo e a sentença saía pervertida.
O problema não era apenas a existência do mal, mas sua capacidade de ocupar os espaços que deveriam ser governados pela justiça.
Habacuque não questionava a existência de Deus. Questionava o silêncio de Deus. Existe uma diferença profunda entre abandonar a fé e levar as perguntas da fé até a presença divina.
O profeta conhecia o caráter daquele a quem clamava. E era justamente esse conhecimento que tornava a demora tão difícil de compreender.
Talvez esse seja o conflito de quem procura viver com integridade em uma sociedade que frequentemente recompensa o contrário. Você faz o que é certo e vê quem age desonestamente avançar. Você espera justiça e assiste à impunidade se repetir. Você ora, mas os acontecimentos parecem contradizer aquilo que aprendeu sobre Deus.
O perigo é permitir que a demora da justiça transforme nossa percepção do caráter divino.
Habacuque nos ensina que a fé não precisa fingir que está tudo bem. A Bíblia não esconde o escândalo da injustiça, nem silencia a voz de quem pergunta. Às vezes, a oração não começa com uma declaração de vitória, mas com uma pergunta que dói.
Entretanto, o primeiro capítulo não é o último da história. A Babilônia também seria julgada. Nenhum império é eterno, nenhuma estrutura de poder está acima do Senhor e nenhuma aparente vitória do mal representa a conclusão definitiva da história.
Isso não significa que veremos toda injustiça corrigida no tempo que desejamos. Significa que a demora não transforma o mal em bem, nem a impunidade humana revoga a justiça divina.
A maior prova de que o mal ainda não venceu não é a ausência de injustiça ao nosso redor. É a decisão de não nos tornarmos semelhantes àquilo que tanto denunciamos.
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