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sábado, 4 de abril de 2026

AGUILHÃO

 Onde está, ó morte, o teu aguilhão?

"E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás" (Gn 2.16, 17).
A ordem dada a Adão no Éden foi uma prova. Entender esse princípio é de suma importância. Uma prova nunca jamais é dada para dar conhecimento a Deus, mas ao próprio ser-humano. Deus não apenas sabe, mas determina todas as coisas. Ele jamais precisaria colocar alguém à prova para saber exatamente o que tal pessoa fará. Ele já tem tudo claro e estabelecido em sua mente. Dessa forma, a prova foi para o homem, para que percebesse que sem o Senhor, nada se pode fazer! A humanidade viria a ter a plena e inquestionável prova de que a lealdade a Deus implica sua própria vida. O homem deve se integrar totalmente a Deus como requisito da encarnação, do maravilhoso projeto divino de se tornar homem também. A proposta de Deus ao homem, em sua mente, ia muito além de dividir-lhe morada. Incluía ser um deles também.
A mente de Deus não é encadeada como a nossa, que trabalha com conclusões e “descobertas”, mas é conhecimento puro de toda realidade acima do tempo e do espaço. O Senhor vê e conhece tudo ao mesmo tempo, sem ter a necessidade de tempo para aprender ou compreender. Assim, a encarnação, embora seja colocada em ordem histórica e atrelada ao propósito de salvação, tal é apenas um dos “braços” de todo organograma eterno da mente divina, cujo pensar é totalmente diferente do nosso. Mesmo uma ideia de “organograma” seria imprópria para a compreensão da mente divina. Contudo, talvez seja o máximo que possamos chegar, ou seja, que uma obra de Deus tem desdobramentos e objetivos diversos. Deus se tornaria homem na realização de um propósito eterno de salvação. Assim, falando-se de Adão, se ele resistisse à tentação, receberia o direito de comer o fruto da árvore da vida, tendo assim garantida a sua eternidade, isto é, a vida junto com Deus.
No entanto, dentro do intrincado e elevado propósito do Criador, aprouve-lhe decretar permitir a queda. Como diz Agostinho, ao homem original foi dada a capacidade de não pecar, mas não de jamais pecar (posse peccare, posse non peccare). Adão tinha o livre-arbítrio, isto é, o poder de escolha sem qualquer influência determinante, a total liberdade da vontade. Com a queda isso foi perdido. Hoje o ser-humano tem livre-agência, a liberdade para agir de acordo com sua vontade escravizada pelo pecado (non posse non peccare). Já o crente, embora tenha uma natureza regenerada, convive ainda com o "fantasma de Adão", a antiga natureza que ainda o assombra e, não raro, o leva ao pecado. Embora consigamos reconhecer o bem, nossa vontade ainda está ligada, em parte, ao mal, de forma que não se mostra inteiramente livre (posse non peccare). Portanto, quando Adão decidiu pecar, o fez sem qualquer tendência ou ligação com o mal - sua vontade era inteiramente livre. Isso é livre-arbítrio.
Uma vez caído, passou a viver uma existência de morte. Entendamos que morte e vida são opostos absolutos. Onde há morte, não há vida; onde há vida, não há morte. Assim, uma vez que essa presente existência é um estado de morte, não há vida aqui em nenhuma medida. Vida foi o que Deus criou e deu ao primeiro casal, em uma existência perfeita, onde não havia presa e predador. Adão não conhecia a morte, tendo que usar de lógica reversa para ter uma ideia de qual seria para si o resultado inevitável se viesse a desobedecer. Isaías fala do "novo céu e nova terra" refletindo o que era a existência perfeita de Adão e Eva: o boi pastará com o leão, o lobo com o cordeiro; a criança meterá a mão na toca da serpente. Essa é uma ordem perfeita, onde a morte não existe nem para o homem, nem para os animais.
O que vivemos hoje é um estado de morte. Entendamos que isso significa muito mais do que a falência de nosso organismo. Morte quer dizer separação, aquilo que é típico da obra do "diabo". É interessante que a morfologia dessa palavra no grego, composta de uma preposição usada como prefixo, dá a ideia daquele que atravessa, que divide. O diabo tem por ofício causar a morte, a separação. Foi o que ele fez com a humanidade, ao atuar para separar Adão de Deus. Além de ser separado de Deus, a morte implicou a separação do casal. O relacionamento conjugal seria marcado por uma espécie de sujeição da mulher pelo marido: "o teu desejo será para o teu marido e ele te dominará". A mulher criada para ser auxiliadora, agora, por causa do pecado, tem prazer e satisfação em se colocar acima do marido. Este, por sua vez, que deveria zelar por sua esposa, muitas vezes a faz objeto de sua vontade. O estado de morte que implica esta existência, aplicado ao matrimônio, culmina no odioso divórcio.
Morte também trouxe a separação entre irmãos. Caim, por inveja e orgulho, mata seu irmão Abel. Aqui temos o exemplo da morte como o atrito entre irmãos, que pode levar ao extremo do assassinato. Nisto também, a morte alcançou o relacionamento de pais e filhos, pois, pelo que fez, Caim foi expulso da presença de seu pai, além de privá-lo da convivência com o irmão, por tê-lo matado. Morte também denota separação entre o homem e o meio-ambiente, pois a Criação, que permanece aliada do Criador, como não poderia deixar de ser, sujeita-se às consequências do pecado de Adão para se tornar um dos instrumentos da maldição de Deus sobre o homem caído. A terra passou a produzir espinhos e abrolhos, além de tempestades, enchentes, secas, furacões, tsunamis, pragas, vírus, bactérias etc. Por sua vez, o homem se tornou o maior predador da Criação, externando sua ganância e loucura. Ao fazer isso, volta-se não apenas contra o Criador, mas também contra si mesmo, por sua ligação e dependência intrínseca da Criação.
A morte se tornou a existência dos homens, a ponto de buscarmos a manutenção desta existência decrépita por meio da morte de animais. Devido à indústria alimentícia, temos perdido a percepção mais clara da morte. Quando entramos em um açougue, o que vemos é morte para todo lado. Quando compramos uma caixa de hambúrguer não vem escrito: "aqui jaz o boi fulano", com uma estrelinha com a data de nascimento e uma cruz com o dia da morte. Não há epitáfios nas embalagens, mas a morte está ali. Por isso, o último estágio da separação causada pela morte é a separação do corpo e alma, quando Deus desfaz o homem, recolhendo o espírito que foi dado e devolvendo à terra o corpo da qual foi formado.
Mas a boa notícia é que em Cristo já começamos a viver. Significa dizer que todas as separações da morte começam a ser revertidas na vida do crente. Seu contato com Deus é retomado, certamente ainda não em plenitude, mas com a possibilidade de crescermos a cada dia em direção a ela. Temos a bênção de matrimônios felizes e a capacidade de investir em nosso casamento para que jamais chegue a um divórcio. O relacionamento familiar tornar-se abençoado. Mediante a humildade resultante da cruz, somos capazes de fazer do contato familiar uma das maiores bênçãos desta existência. O relacionamento entre pais e filhos e entre irmãos é resgatado. Também olhamos para a Criação cheios de gratidão a Deus por fazermos parte dela. Está em nós o desejo de preservá-la, pois existe para a glória do Senhor.
Por fim, sabemos que a separação entre o corpo e a alma acabou na ressurreição de Jesus. Que, embora a morte física seja uma necessidade para que herdemos uma nova matéria, incorruptível, será uma breve separação. Reassumiremos a inteireza do ser, corpo e alma, no dia da volta de Cristo. Jesus desfaz aquilo que Adão fez: ele põe um ponto final à morte, a todas as separações. Talvez não haja afirmação mais contundente quanto a isso do que o título de uma famosa obra do teólogo puritano John Owen: "A Morte, da Morte, na Morte de Cristo".
Por isso, podemos clamar a plenos pulmões, juntos com Paulo: "Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" (1 Co 15.55). Embora ainda no corpo caído e em um mundo amaldiçoado por Deus, os pulmões de nossa alma já respiram o vento do Espírito, a nova vida em Cristo. Contemplamos as coisas celestiais, ávidos pelo dia em que passaremos "para o lado de lá", eternamente com o Salvador, o fim de nossos dias em um mundo maldito. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus

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