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sexta-feira, 3 de abril de 2026

DEUS

 De que me serve um Deus vulnerável, senão para desbancar minhas presunções? De que me serve um Deus despido, ensanguentado, rendido à dor, exposto ao escárnio e à ridicularização, senão para expor meus preconceitos mais arraigados e a obscenidade silenciosa da minha própria alma?


De que me serve um Deus embriagado de amor?


Confesso: prefiro um Deus sóbrio, preciso, implacável, que jamais erre a pontaria ao atingir aqueles que elejo como meus inimigos.


Não quero um Deus que desmascare minhas certezas ou desfaça minhas ilusões.


Quero um Deus que me valide e me garanta, que seja o fiador de meus delírios megalomaníacos. 


Um Deus sob medida, customizado, domesticado, incapaz de me frustrar.

Um Deus que nunca ouse dizer “não”.


Quero um Deus que seja bom em fazer o mal, quando ele me convém.


Um Deus à minha disposição, pronto para atender meus caprichos, justificar minha ambição, santificar minha ganância.


Um Deus que não invada os porões da minha alma, que não ouse rearrumar os móveis do meu interior, que preserve intacto o meu pequeno mundo; no máximo, que disfarce a poeira acumulada com o tempo.


Um Deus que não se atreva a vasculhar os porões da minha alma, nem altere a posição dos móveis nos cômodos do meu ser. Que preserve meu mundo particular intacto. Quando muito, que espane a poeira acumulada com o tempo. Mas deixe tudo como está. 


Quero um Deus severo com os outros, mas indulgente comigo.


Um Deus que subscreva minha ideologia, ainda que ela custe a dignidade e a vida de tantos.


Enfim, um Deus à imagem das minhas suposições.


Mas em que esse Deus se parece com Jesus?


Foi por isso que o crucificamos.

Ele não preenchia os requisitos.

Era generoso demais com os indignos e duro demais com os que se julgavam o ápice da virtude, os autoproclamados guardiões da moral e dos bons costumes.


O Deus revelado em Jesus não cabe em meu andor político, nem pode ser dissecado pela minha teologia, nem bajulado em minha liturgia. 


Talvez por isso eu ainda prefira outro deus:

um que transforme igrejas em mausoléus,

ministros em arautos da morte,

e cultos em procissões rumo ao abismo.



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