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sexta-feira, 3 de abril de 2026

FILHOS



Eis um dos conflitos mais profundos da experiência humana: o choque entre a projeção e a revelação, entre aquilo que idealizamos e aquilo que, de fato, é.


Na parentalidade, esse embate assume contornos ainda mais intensos. Muitos pais atravessam jornadas espirituais e emocionais carregando um peso invisível: o “filho ideal”. Esse personagem, moldado por desejos, tradições, expectativas sociais e leituras rígidas da vida e da fé, torna-se tão presente que obscurece a percepção do filho real. Sem se darem conta, passam a se relacionar mais com a imagem que construíram do que com a pessoa viva, singular e irrepetível que têm diante de si.


A narrativa bíblica oferece dois espelhos para essa tensão: Jefté e Abraão.


Jefté age movido por ansiedade, desejo de aprovação e uma compreensão equivocada de devoção. Faz uma promessa imprudente, oferecendo em sacrifício aquilo que primeiro encontrasse ao retornar para casa (Juízes 11:30-37).Quando sua filha surge, ele se vê aprisionado a um voto que Deus não pediu. O drama não está apenas na tragédia em si, mas na inversão de valores que a antecede. A promessa passa a valer mais do que a vida. A ideia de fidelidade a Deus se sobrepõe à própria misericórdia.


Sua filha suplica que o pai lhe conceda tempo para chorar o futuro que lhe foi tirado. Chora a vida que lhe foi negada por uma espiritualidade incapaz de discernir que Deus não se compraz em sacrifícios humanos. Jefté representa todos aqueles que, em nome de uma suposta fidelidade, sacrificam a alegria e a identidade de quem está sob seus cuidados, mais preocupados com a própria reputação do que com o bem daqueles a quem dizem amar.


Abraão, por sua vez, também sobe um monte com seu filho (Gênesis 22:1-2). A tensão é semelhante, mas o desfecho revela outra compreensão de Deus. Ao ser questionado por Isaque sobre o sacrifício, responde apenas que Deus proverá (Gênesis 22:7-8). E, no momento decisivo, quando tudo parece caminhar para a repetição de uma lógica sacrificial, a intervenção divina interrompe o gesto (Gênesis 22:11-12). A mão é contida. O filho é poupado.


No lugar dele, surge um substituto, um carneiro preso pelos chifres em um arbusto (Gênesis 22:13).


E é aqui que se revela uma chave essencial: o que deve ser colocado no altar não é o filho de carne e osso, mas aquilo que projetamos sobre ele. O “filho ideal”, construído a partir de expectativas, medos e condicionamentos, é o verdadeiro sacrifício exigido.


O problema é que muitos invertem essa ordem. Preservam a idealização e ferem a realidade. Tentam ajustar o filho à imagem que criaram, como se a vida dele devesse caber em um roteiro pré-estabelecido. Nessa tentativa, não percebem que estão violando aquilo que deveriam preservar.


Insistir em sacrificar quem o outro é para que se torne aquilo que gostaríamos que fosse não é um ato de fé. É uma forma de violência legitimada por linguagem religiosa. Não há virtude em impor um destino. Não há devoção em negar a existência concreta do outro.


A verdadeira espiritualidade exige outro tipo de coragem. A coragem de abrir mão daquilo que idealizamos. A coragem de reconhecer que nossos filhos não nos pertencem como extensões dos nossos desejos. A coragem de desamarrar, antes que seja tarde, aquilo que nós mesmos colocamos sobre o altar.


Nessa semana em que se recorda a paixão de Cristo, contemplamos o Cordeiro de Deus que se entrega em amor. Em Jesus Cristo, não vemos a exigência de sacrifícios alheios, mas a autoentrega que poupa outros de serem esmagados por sistemas de culpa e negação (Isaías 53:4-5).


Cristo é a encarnação do Filho Ideal — aquele que ouve do Pai: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mateus 3:17; Mateus 17:5). Sua entrega sacrificial nos desobriga de corresponder às expectativas socialmente impostas (Gálatas 1:10; Colossenses 2:20-23). Em Cristo, somos libertos para sermos verdadeiramente livres e autênticos (João 8:36; Gálatas 5:1).


“Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Romanos 8:32).


Ele não poupou o seu próprio Filho, o único que alcançou o ideal de perfeição para que poupemos os nossos.


Deus não nos deu filhos para serem oferecidos em sacrifício no altar de nossas projeções. Deu-nos filhos para serem amados, conhecidos e acompanhados em sua singularidade. O papel de quem ama não é conduzir ao altar da negação, mas caminhar ao lado na descoberta de quem se é.


Quando o “filho ideal” finalmente é entregue, algo se revela com clareza. O filho real aparece. Não como uma decepção, mas como uma verdade que sempre esteve ali, aguardando ser vista. E só então o amor deixa de ser condicionado para se tornar presença.


O filho real, com sua identidade, sua verdade e sua complexidade, não deve ser imolado. Deve ser acolhido. Deve descer o monte de mãos dadas com quem aprendeu, ainda que tardiamente, que amar é renunciar ao controle.


A fé que preserva é aquela que nos transforma antes de tentar transformar o outro. É aquela que nos ensina a soltar, para finalmente poder abraçar.


Em vez de enxergar no outro (alter, em latim) o sacrifício a ser oferecido, que tal enxergar nele o altar onde sacrificamos nossas projeções?


O alter não é objeto da nossa vontade, mas espaço da nossa conversão. Não é matéria a ser moldada, mas mistério a ser acolhido.


O alter é altar! Nosso ego é o sacrifício!

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