Vidas plurais
“Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum” (At 4.32).
Talvez não haja evidência mais clara e contundente da pecaminosidade humana que a tendência de corromper mesmo as coisas mais santas, transformando-as em práticas mais aceitáveis aos interesses de pecadores. Os judeus da época de nosso Senhor mostravam isso ao corromper a pura Palavra de Deus por meio de suas tradições humanas. Dessa forma eram capazes de tomar o mandamento: “Amarás o teu próximo”, e acrescentar “odiarás o teu inimigo”, um recorte de sua tradição oral (Mt 5.43).
Por isso, tornavam a exigência das Escrituras algo meramente humano, pois querer bem aqueles que nos beneficiam e odiar os que nos ferem é o natural de um coração humano caído. Também por meio da tradição encontraram um meio de não investir no sustento dos pais na velhice: “Mas vós dizeis: Se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: É oferta ao Senhor aquilo que poderias aproveitar de mim; esse jamais honrará a seu pai ou a sua mãe. E, assim, invalidastes a palavra de Deus, por causa da vossa tradição” (Mt 15.5, 6).
Essa tendência de corromper as coisas santas é vista hoje na igreja de várias formas. Uma das mais danosas é o desenvolvimento de um cristianismo individual e egoísta. Até a obra de Cristo foi reduzida, individualizada, enfatizando apenas a própria salvação e o favor de Deus a si, em detrimento dos demais eleitos. Os cânticos passaram a utilizar pronomes pessoais e possessivos na primeira pessoa do singular. Dessa forma, canta-se o “eu” e o “meu” deixando de lado, cada vez mais, o “nós” e o “nosso”. Jamais nos esqueçamos que a vida cristã não é apenas individual, mas também eminentemente plural. É por isso que nada há tão central à ideia de igreja do que a unidade. Isso já pode ser percebido na principal figura utilizada pelo apóstolo Paulo para ela: o corpo de Cristo. Toda ideia de “corpo” está centrada na integridade.
Nada há mais chocante para um ser humano do que a visão de um corpo estraçalhado, partido, desmantelado. Contudo, como crentes, parece que não temos o mesmo horror diante do esquartejamento do Corpo de Cristo. Vivemos uma sociedade individualista, fruto, dentre outras causas, de uma filosofia existencialista que predomina em nossa sociedade. Como resultado, tem-se perdido o senso de liderança e de subordinação. Há uma verdadeira doutrinação que impõe a rebelião como prova de virtude. Ser autônomo, simplesmente dizer e agir da forma como se pensa, é o modelo que se tem de homem adulto. Submeter-se a alguém se tornou vexatório. Certamente, se esse tipo de atitude influencia a igreja, haverá muitos problemas. Trará como consequência inevitável o atrito e a discórdia.
A palavra discórdia tem uma morfologia muito interessante. Literalmente indica uma “divisão no coração”, “algo contrário ao coração”. O termo latino “cardia” ou “cordia” significa “coração”. Por isso, o termo “discórdia” tem como seu antônimo “concórdia”, que dá a ideia de “um mesmo coração”. Tomando como base a figura de “corpo” empregada pelo apóstolo Paulo, percebe-se perfeita harmonia com a descrição de Lucas quanto à vivência da igreja de Jerusalém, logo após o derramamento do Espírito Santo no Pentecoste: “era um o coração e a alma”. Nessa afirmação, “coração” e “alma” são sinônimos, termos que indicam o homem interior. Ao ladear termos com significados semelhantes, Lucas tem como objetivo a ênfase. Havia uma unidade profunda, visível, palpável entre eles, expressa como se fosse possível unir o que já é um. O ser humano tem apenas um coração e apenas uma alma. Todos vivem como um.
É preciso compreender bem o conceito de corpo e de unidade. Às vezes, pensa-se na unidade como se fosse um montão, um amontoado, juntar pessoas no mesmo lugar. No entanto, é perfeitamente possível sentir profunda solidão mesmo no meio de uma multidão. Unidade é viver como um só, pensar concordemente, ter um único coração, uma só alma. Não está ligada principalmente à proximidade física, embora também seja importante. Aí está a preciosa figura da igreja de Cristo como “corpo”.
Por isso, entendemos que não há inimigo maior da unidade do que a discórdia. De braços dados com ela está a desconfiança. Pode-se dizer que é sua irmã gêmea não univitelina, que se alternam na ordem de nascimento. Haverá situações em que se vivia em relacionamento amistoso, mas que se degenera instantaneamente, sem qualquer aviso prévio. Aqui a discórdia é a primogênita, trazendo em seguida a desconfiança. Isso se dará em ocasiões quando ocorrem atritos repentinos devido a situações imprevistas e súbitas.
Contudo, poderá ser o caso de a discórdia ser a segundogênita, quando a desconfiança se estabelece especialmente devido ao descrédito com que se olha para os irmãos. Na prática, o ambiente da discórdia pode ser causado por várias coisas, todavia, todas apontando para alguma forma de pecado. Então, como a santidade e a obediência a Deus cimentam a unidade, colocando todos juntos na mesma prática e disposição mental, inversamente o pecado trará facções e divisões, polarizações dentro da igreja, individualizações que promoverão o esquartejamento do Corpo de Cristo. O coração desse corpo estará infartado, como que dividido, dilacerado.
O texto epigrafado, como vimos, descreve o comportamento da igreja ainda sob a influência do maior avivamento que já houve na história: o derramamento do Espírito Santo. A vida no Espírito resulta sempre unidade, pois todos, anulados de suas próprias vontades e desejos, são capazes de viver unidos para a glória do único Senhor.
No entanto, na experiência dos irmãos de Jerusalém, à medida que o tempo foi passando, tal experiência foi se alterando, e o Espírito, se apagando. O episódio narrado imediatamente após a descrição feita por Lucas no texto em epígrafe, fala da mentira de Ananias e Safira, no início do capítulo 5. No capítulo 6, explicita-se a clara discriminação que os judeus da Judeia praticaram para com as viúvas helenistas que estavam em Jerusalém. A principal estratégia do Diabo foi também percebida como uma das mais eficientes nas guerras: “dividir e conquistar”. Assim agiam os romanos, bem como, os colonizadores na conquista da América, oportunizando-se das inimizades entre ameríndios.
Todo crente tem a responsabilidade de preservar a unidade, anulando suas próprias vontades e disposto a fazer, até mesmo, o que não concorda, uma vez que não se trate de certo ou errado. Isso é muito mais do que uma estratégia administrativa: é a preservação de relacionamentos preciosos, da maravilhosa comunhão no Corpo de Cristo. Descubra a beleza da vida em família, como Corpo de Cristo, na interação de uns para com os outros, a multiplicidade da vida plural. A humildade é o pressuposto da vida cristã, o cerne da concordância. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
Nenhum comentário:
Postar um comentário