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quinta-feira, 2 de abril de 2026

CRUZ

 A cruz e a expiação

“Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto” (Sl 32:1).
A cruz de Jesus está intimamente ligada à ideia da “expiação”. O yom Kippur ou “Dia da Expiação” era a data mais importante do calendário hebraico. Havia as três grandes festas que celebravam preciosas realidades que, por isso, se revestiam de distinta relevância. A Páscoa comemorava a libertação do cativeiro egípcio; tabernáculos agradecia a Deus a provisão, especialmente na forma das chuvas, relembrando a manutenção sobrenatural do povo no deserto por meio do maná e da água da rocha; pentecostes celebrava os primeiros frutos da colheita, que eram, também, os melhores da safra. Em todas as festas e mesmo nos sacrifícios, o individuo comum tinha alguma participação. No entanto, no “Dia da Expiação” todos ficavam em casa.
O motivo para isso é que o “Santo dos Santos” seria aberto. O Deus único e verdadeiro, que se autoconfinou por graça, seria acessado por pecadores. A expulsão do homem do Éden é o banimento da humanidade caída da presença do Criador. No ato da queda de Adão, o Criador estendeu aquele momento da eternidade, criando uma existência passageira que, ao se extinguir no devido tempo, trará a existência humana novamente à eternidade de Deus. O Éden, como lugar de encontro do Criador com o ser criado à sua imagem e semelhança, foi preservado, pois haverá de ser reintroduzido na Criação, tendo a Nova Jerusalém construída em seu centro. Este lugar especialíssimo manteve-se na eternidade de Deus, santo e perfeito.
Uma vez que o homem se tornou pecador, o Deus santo não pode mais se manifestar diretamente a ele, como ocorria com Adão na viração de todo dia, para ter contato imediato, pessoal e direto. A única forma de o Senhor permitir a existência de um mundo caído é se retirando dele. Entendamos que isso não significa a real ausência do Criador, como se ele tivesse criado todas as coisas e ido embora, como pregam os deístas. Deus é o próprio lugar da existência! Tudo está em Deus! Nada existe por si mesmo, apenas o Senhor. Assim, ele empresta sua existência para que tudo nele exista. Falar, nesse sentido, de Deus se retirar do mundo dos homens seria equivalente à não-existência, a tudo voltar ao nada. O ímpio vive sem essa presença pessoal de Deus, devolvido por Jesus ao eleito. Paulo se refere a essa existência anterior à conversão como “sem Deus no mundo” (Ef 2.12).
O autoconfinamento divino se refere à manifestação de sua presença pessoal. Ele não se manifesta mais direta e pessoalmente ao homem como ocorria no paraíso, pois isso levaria inevitavelmente a juízo imediato, inviabilizando totalmente o propósito de salvação. Dizendo isso de outra forma, para salvar o eleito, Deus permitiu uma existência na qual ele não se manifesta pessoalmente, embora tudo esteja em seu Ser, em sua existência. Por isso Deus é mostrado “confinado” ao Santo dos Santos. Naquele lugar recluso no Tabernáculo e no Templo, apenas o sumo sacerdote poderia entrar exclusivamente no Yom Kippur, para derramar o sangue do bode expiatório sobre a tampa da arca da aliança, chamada de propiciatório.
A palavra hebraica traduzida por “expiação” tem como sentido básico a ideia de “encobrir”. A “expiação” é uma ideia mais profunda e abençoadora do que a de “redimir” ou “remir”. Estas associam-se, tão-somente, ao conceito de “pagamento” de uma dívida. Nesse sentido, a morte de Jesus paga nossa dívida de sangue, a necessidade de nossa morte, tendo Jesus morrido em nosso lugar. Contudo, o conceito de “expiação” vai além. Por isso, envolvia duas “vítimas”, dois bodes. Um era o chamado “bode emissário”. Esse era solto no deserto, simbolizando a culpa que é levada para longe, como que “encoberta” aos olhos de Deus. O outro era o “bode expiatório”, que seria sacrificado no altar, cujo sangue seria aspergido na tampa da Arca da Aliança, simbolizando o pagamento da dívida. Notemos, portanto, que o conceito de “expiação” inclui a ideia de “redenção”, mas vai além, “encobrindo” a culpa de nossos pecados. Enfatiza-se assim que o Senhor não mais considera o nosso pecado.
A lógica então é: o Deus que se ocultou dos homens por causa dos pecados deles faz com que os homens se ocultem quando o que o separa deles é removido. O fato de o Santo dos Santos ser aberto no Dia da Expiação levava tamanho temor ao povo quanto ao Deus santo que ninguém saía de casa. No entanto, em Cristo nossos pecados são cobertos e pagos. Para o eleito, o véu do santuário já está rasgado e temos acesso à presença de Deus. Em Apocalipse, a abertura do santuário de Deus provoca os piores juízos sobre a terra antes do juízo final e definitivo (Ap 15.5).
Na cruz de Jesus nosso pecado é expiado. Ele, como sumo sacerdote e vítima do sacrifício, oficia-se a si mesmo para pagar a nossa dívida e tenhamos acesso à presença do Senhor Deus único e verdadeiro. Já experimentamos algo do Éden hoje, por podermos acessar a presença santa e pessoal do Criador de forma muito mais intensa e plena do que aqueles que viveram o Antigo Testamento. Somos bem-aventurados! Desfrutamos da felicidade eterna porque nossa iniquidade foi perdoada, nosso pecado encoberto. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus

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