Quando o Cristo prometido não é o Cristo pretendido
“Então, Jesus e os seus discípulos partiram para as aldeias de Cesareia de Filipe; e, no caminho, perguntou-lhes: Quem dizem os homens que sou eu? E responderam: João Batista; outros: Elias; mas outros: alguns dos profetas. Então, lhes perguntou: Mas vós, quem dizeis que eu sou? Respondendo, Pedro lhe disse: Tu és o Cristo. Advertiu-os Jesus de que a ninguém dissessem tal coisa a seu respeito” (Mc 8.27-30).
É verdade que há no homem uma vontade por Deus. No entanto, não é a vontade para a salvação, para se tornar servo, mas a vontade de se beneficiar do poder do Senhor conforme a vontade de seu próprio coração humano. Essa é a grande diferença das religiões criadas pelos homens e da única religião verdadeira. A primeira é baseada na busca do suprimento das necessidades, ou mesmo, na satisfação de desejos do coração. A segunda é se colocar a serviço de Deus. A primeira enfatiza o homem e sua vontade; a segunda, centraliza Cristo na alma do pecador. A primeira busca a exaltação do homem; a segunda, a glória de Deus. A primeira nada faz à natureza humana; a segunda a transforma à imagem de Cristo. Ninguém vai até Deus para ser salvo, mas costumeira e ocasionalmente o pecador se lembra de que existe um Deus que pode lhe ser útil em ocasiões específicas.
É verdade que, por vezes, o Senhor se vale de ocasiões de dor, dificuldade, carestia, para chamar alguém ao reino de Deus. Um bom exemplo é a passagem da cura dos dez leprosos. Os dez tiveram no coração a disposição de buscar ao Senhor. É importante ressaltar que nenhum deles buscava em Cristo a salvação, já arrependidos de seus pecados. Nove alcançaram o que buscavam: benefícios terrenais, a cura da lepra. Apenas um deles, um samaritano leproso foi tocado pela graça e recebeu, por esta graça e de graça, a salvação. O que atraiu este a Cristo foi sua enfermidade. No entanto, é trágico constatar que a maioria daqueles que vão a Jesus devido a algum problema geralmente o abandonam após a solução, ou não, do problema. Cristo não está obrigado a resolver os problemas terrenais dos pecadores, nem mesmo dos que já são seus.
A vinda de Cristo encerra o Antigo Testamento e inaugura o Novo. Nele estão cumpridas todas as promessas da antiga ordem e se revelam outras relativas à plenitude, que se consumarão ainda em seu retorno. Na época do Messias, a plenitude dos tempos, havia uma grande expectativa por parte dos judeus motivada, de forma especial, pela dominação romana. Esperavam o cumprimento das promessas, o que incluía a vinda não apenas do Messias, mas do profeta semelhante a Moisés e de Elias. Alguns desenvolveram também a crença no retorno de algum outro profeta. Toda essa expectativa era motivada pelo problema comum que enfrentavam: os romanos.
Sabemos que a promessa da vinda do Messias e do profeta semelhante a Moisés se cumprem em Jesus, bem como, que a referente a Elias se realiza em João Batista. No entanto, os olhares dos judeus para eles eram motivados pelo desejo de libertação política que tinham, não exatamente o arrependimento e o serviço a Deus. Foram capazes de olhar para Jesus e o reconhecerem como o Messias, a ponto de o receberem em Jerusalém como o rei, como se deu na entrada triunfal.
Todavia, o Cristo prometido não era o Cristo pretendido. Impuseram sobre o verdadeiro Cristo um formato, um perfil, de libertador político nos moldes de Moisés e Davi, um general invencível que os libertaria do jugo romano. O mesmo risco paira sobre nós: de modelarmos Cristo segundo nossos próprios anseios e necessidades, a tragédia de olharmos para o Jesus das Escrituras, mas buscando nele um Cristo que é produto de nosso coração. Essa abordagem é carnal e humana, nada tendo a ver com a transformação da graça. De fato, nenhum de nós está isento de tal influência exatamente porque neste mundo temos aflições. O sofrimento é para nós grande ocasião de tentação para modelarmos o Salvador conforme bem entendermos. Pior ainda é quando o pecador formata o Messias conforme seus desejos pecaminosos, a blasfêmia de acreditar que o Senhor se modelará ao nosso pecado.
É verdade que não há como nos aproximarmos de Deus sem algo a pedir. De certa forma, isso seria pura arrogância! Como eu, um pecador miserável, embora já redimido, posso comparecer diante do Criador, Sustentador e Salvador, sem ter nada a pedir? No entanto, não se trata de uma abordagem interesseira e manipuladora, mas sincera, na consciência de minha nulidade e injustiça, em completa humilhação. A consciência de tudo o que Deus realizou a nós em Cristo nos impulsiona ao serviço sincero, adoração com a vida. Tenha um abençoado dia na presença do Senhor
Nenhum comentário:
Postar um comentário