Não reclamo da sorte. Reconheço, outros sofrem mais do que eu.
Não me indisponho com Deus. Gosto de acompanhar Mercedes Soza e cantar: “Gracias a la vida que me há dado tanto…”.
Prefiro não organizar a vida imaginando que uma divindade aplainará minha jornada até deixá-la um mar de almirante.
Sei que nossa navegação acontece com o risco de tsunamis.
Sem capitular para extremos de otimismo e pessimismo, encaro a realidade crua com certo estoicismo.
Se prevejo a perpetuidade cínica de políticos e protesto contra a decadência comercial da religião, não me vejo como um rabugento.
Não hospedo sentimentos que produziriam em mim sensação de desesperança.
Como não tenho pressa de morrer, desengesso a minha história lodaçal que é a expectativa lúgubre de sempre esperar coisas ruins.
Recuso me afogar em pessimismo mórbido. Aviso a minha alma: nem tudo caminha inexoravelmente para uma tragédia grega.
Celebro alegrias mínimas. Gosto de dormir cansado e sonhar voando. Não há como descrever a alegria de acordar tarde em feriado. Celebro correr na chuva, comer chocolate, comprar quebra-queixo em feira livre, derramar lágrimas junto com o atleta campeão.
Na constante oscilação entre os extremos da alegria e da tristeza, danço, sofro, leio poesia, oro com angústia e teimo em pregar sobre a esperança.
Não fujo do amontoado de contradições que povoa minha alma. Sou crise ambulante. Só não desisto de seguir adiante; entre lamento e júbilo, sei do milagre que é viver.
Soli Deo Gloria
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