“Este é o mal que há em tudo quanto se faz debaixo do sol: que a todos sucede o mesmo. Também o coração dos filhos dos homens está cheio de maldade; há desvarios no seu coração durante a sua vida, e depois se vão aos mortos” (Ec 9.3).
A questão da teodiceia, ou seja, da existência e da essência do mal, é uma preocupação doutrinária da igreja já nos primeiros séculos da era cristã. Primeiramente, é importante que distingamos entre o que é mal, isto é, o mal essencial, e sua materialização na forma de consequências. De certa forma, é acertado dizer que Deus é o padrão do bem e também do mal. Isso é necessariamente assim, pois tudo o que é santo, justo e perfeito, se harmoniza com o Senhor. Essa é a definição do bem. No entanto, tudo o que não concorda com Deus, com sua essência e vontade, isso é o mal. Colocando isso de outra forma, tudo o que se ajusta à divindade é essencialmente bom, e tudo o que não se harmoniza é mal. Para não ligar o pecado ao Criador, Paulo explica o mal como algo já existente em teoria, fora da Criação, como aquilo que é contrário a Deus. Dessa forma, diz o apóstolo: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12). O pecado é visto como se fosse um “alienígena”, que entra no mundo de Deus tendo o homem como sua porta de entrada. Sua consequência inevitável sempre será a morte. O mal é moral, isto é, está nos domínios da vontade, localizado na alma. Dessa forma, o Criador permitiu que o homem, assim como o diabo antes dele, optasse por uma vontade alternativa, o mal, que produziria necessariamente seu resultado de morte. Uma vez afastado de Deus, o ser caído jamais poderá voltar por suas próprias forças.
No entanto, há também uma esfera do mal que é percebida exatamente em suas consequências. É nesse sentido que vemos o próprio Senhor afirmar: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (Is 45.7). Quando é afirmado que “Deus cria o mal” trata-se basicamente da retribuição ao mal, isto é, suas consequências. Todo sofrimento é resultado do pecado e é administrado pelo Senhor segundo sua santa e soberana vontade. No contexto de Israel e Judá não havia mal maior do que estar nas mãos de inimigos, a derrota na batalha, e o pior: o exílio.
Contudo, seria isso que haveria de acontecer devido à quebra da aliança. Em Isaías, Deus não está afirmando que ele criou o desejo maligno, a vontade de desobedecer, a essência do mal, mas que permite as catástrofes pessoais e coletivas como consequência da entrada do pecado no mundo, a paga necessária ao pecado. Basta reparar no verso que se trata de uma estrutura antitética, onde são usados termos opostos entre si. Na primeira relação de oposição está “luz x trevas”. A escuridão é o contrário de luz. Entretanto, quando se diz: “faço a paz e crio o mal”, o que é o oposto à paz? É a guerra, aquilo que trazia tormento e sofrimento ao povo. Deus está afirmando que permite a guerra e toda forma de sofrer, muitas vezes, como resultado do pecado do próprio homem.
Nós costumeiramente chamamos o sofrimento de mal. Todavia, reparem que o crente é aquele que deve estar em paz com seu sofrimento, entendo-o sob a ótica da soberana e bondosa vontade do Senhor. No entanto, jamais concordará com o pecado, aceitando-o pacificamente em sua vida. O sofrimento na vida do crente verdadeiro é oportunidade de aperfeiçoamento, de se aconchegar ainda mais sob as asas do Onipotente, de experimentar a preciosidade da fé depurada pelo fogo. Porém, na cobiça, nas vontades alternativas, nada há de bom. Colocando isso de outra forma, somos chamados a aprender a administrar todos os sofrimentos, mas a rechaçar por completo qualquer vontade pecaminosa, toda cobiça, ainda que travestida de ambições, como o mundo a gosta de chamar. Faz parte da fuga do homem da condenação e do inferno a negação de sua maldade natural. Por meio das psicologias humanas, tudo se tornou “doença”. Dessa forma, o estuprador é doente, o mentiroso é doente, o alcoólatra é doente, o usuário de drogas é doente, mesmo o pedófilo é doente. Tais pessoas não têm do que se arrepender. Elas, na verdade, são apresentadas como vítimas do mal, não sua fonte. O pior de tudo é que, sem reconhecer seus pecados e verdadeiramente se arrepender, não há salvação. Jamais haverá um estuprador crente, um alcoólatra crente, um pedófilo crente etc. A verdadeira conversão deixa tudo isso para trás, fazendo do pecador nova criação de Deus.
Cada vez mais o homem maquia esta verdade: todos são maus. No entanto, a sociedade atual, contaminada por noções marxistas, é pelagiana. Pelágio revoltou-se contra a teologia agostiniana quando ouviu a afirmação do famoso patrístico: “Dá-me aquilo que ordenas, ordenas aquilo que queres”. Jamais aceitou a submissão completa à vontade de Deus. Então, criou uma das maiores heresias da história da igreja, afirmando que o homem nasce sem pecado, possuindo em si a capacidade para o bem moral, isto é, para viver de forma perfeita e impecável. Com isso negava não só o pecado original, mas a própria necessidade da salvação em Cristo. Em linha com o pelagianismo, hoje busca se esvaziar a maldade humana, atribuindo-a a condições sociais. Impera a máxima que o homem é bom e que é o meio que corrompe o ser-humano. Dessa forma, além da dissimulação que chama pecados sórdidos de “doença”, também há a leitura social da vida humana. Aquele que nasceu em lugar onde passou privações materiais, sofreu maus tratos ou abusos, é quase justificado ainda que mate alguém.
A sociedade atual perdeu o senso da maldade do coração humano. Parte-se do princípio que todos são bons, pois os maus só o são por causas exteriores a si mesmos, é o que acham e pregam. Todavia, Salomão já em sua época reconhecia acentuado nível de malignidade na alma humana. Na verdade, reparava que isso não era uma realidade de época, simplesmente relativa a seu tempo, mas como uma constante em todos os séculos, algo sempre peculiar ao que acontece “debaixo do sol”. Associa a maldade inata do ser humano aos desvarios que há em seu coração. Em outras palavras, liga pensamentos abomináveis e contrários à bondade e à santidade de Deus à presença do mal na vida de todo homem natural. Essa é uma área extremamente difícil para todo crente: o domínio do seu pensamento. Para a cristandade atual, ser santo é disfarçar um comportamento aprovado diante dos homens. Acredita que, escondendo seus erros, viverá aquilo que o Senhor determinou em sua Palavra. Pensa a santidade como algo meramente exterior, negando-a aos domínios da alma. Cada crente assemelha-se à lua: há sempre uma face oculta, nunca visível àquele que olha. Contudo, o que se espera é que o crente não tenha o que esconder – isso é santidade. Essa dinâmica de ocultação leva-o a pensar que aquilo que povoa e domina a sua mente não importa, pois não pode ser visto pelos seus semelhantes.
Entretanto, tanto no Novo quanto no Antigo Testamento, as Escrituras enfatizam a importância da pureza interior, da necessidade de termos corações e mentes limpos. Faz parte da vida cristã uma disposição mental agradável ao Senhor. É certo que somos constante e involuntariamente expostos a imagens e informações que nos tentam e tendem à impureza. Portanto, eis a responsabilidade cristã: evitar ao máximo permitir que os olhos repousem naquilo que é inconveniente à santidade, mormente coisas que despertarão pensamentos inadequados. Maquinar maldade faz parte da essência do ser-humano caído, mas não é isso o que se espera dos redimidos no sangue de Cristo. Que nossa mente tenha prazer na Lei de Deus. Que nossos pensamentos sejam orientados para as coisas do alto, onde Cristo vive, assentado à destra de Deus. Que nosso coração seja puro e voltado à santidade. Se assim for, a paz do Senhor estará em nós. Tenha um abençoado dia na presença do Senhor (Rev. Jair de Almeida Junior).
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