Dia desses eu tinha todo o tempo do mundo.
As horas se derramavam lentas pela casa
como luz da manhã atravessando a cortina.
Eu acreditava que os encontros esperavam,
que os abraços podiam ficar para depois,
que sempre haveria outra tarde,
outra mesa posta,
outro telefonema não atendido retornado mais tarde.
Dia desses eu tinha todo o tempo do mundo.
E por isso desperdicei instantes
como quem joga migalhas aos ventos
sem imaginar a fome que sentiria depois.
Não sabia
que a vida é esse sopro breve
entre uma chegada e uma despedida.
Que existem olhares que acontecem pela última vez
sem qualquer aviso do céu.
Hoje entendo o valor das demoras simples:
o café compartilhado,
a voz da mãe chamando da cozinha,
o riso interrompendo o silêncio da casa,
o amigo dizendo “apareça”,
como se o futuro estivesse garantido.
Mas o tempo,
esse artesão invisível,
vai nos roubando sem violência aparente.
Leva primeiro os excessos,
depois as certezas,
e por fim as pessoas que julgávamos eternas.
Dia desses eu tinha todo o tempo do mundo.
Hoje sei:
o mundo é que tinha o meu tempo.
E ele segue passando,
feito rio que não devolve suas águas,
enquanto a vida sussurra, apressada:
“ame agora.
perdoe agora.
abrace agora.
porque o depois
é um lugar que nem sempre existe.”
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