O Deus revelado nas Escrituras tudo preenche, mas está ausente (talvez esse, o maior paradoxo da fé).
Deus está ausente no sentido de retirar-se, amorosamente, para dar espaço a homens e mulheres criados menores do que ele poderem se realizar.
Deus se afasta como o oceano que respeita margens e possibilita a existência da ilha.
Deus é o vazio que nos autonomiza e possibilita amadurecer, escrever história e nos constituir humanos.
O Deus bíblico é mais bem compreendido como aquele que se despoja de todo o poder, como diz Oseias.
O profeta sentiu o que Deus sofria; igual a ele, o Senhor amargava um amor traído e desprezado.
As pessoas que amam não se impõem, coagem ou achacam.
Deus se esvaziou para amar. E essa kenosis (esvaziamento) chega ao ápice na encarnação de Jesus, até o abandono na cruz.
Se Jesus foi o mais legítimo modelo de humanidade, seu grito antes de morrer é dos migrantes embarreirados, dos homossexuais assassinados, das crianças esfomeadas, dos idosos asfixiados: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste”?
Já me perguntaram em que momento da vida, Jesus, totalmente homem e totalmente Deus, exerceu sua humanidade com maior exuberância?
Respondo: na cruz! Toda e qualquer pretensão do divino lhe foi subtraída e ali, despojado totalmente de qualquer usurpação de ser igual a Deus, ele se fez modelo de humanidade; no despojamento do poder, revelou quem Deus é.
Aprecio Dietrich Bonhoeffer por notar que nossa maioridade só acontece ao acordarmos para uma verdade: “o Deus que está conosco é o Deus que nos abandona”.
Fecho com ele que devemos viver “perante e COM Deus, mas SEM Deus”.
O pastor alemão me encanta ao dizer: “Deus se deixa empurrar para fora do mundo até a cruz; Deus é impotente e fraco no mundo e exatamente assim, somente assim ele está conosco e nos ajuda.
“Em Mateus 8.17 está muito claro que Cristo não ajuda em virtude de sua onipotência, mas da sua fraqueza, do seu sofrimento”.
Sei que vou na contramão da enorme e esmagadora maioria dos cristãos brasileiros, mas entendo que Deus nos quer emancipados e não infantilizados.
Nesse vetor importante construo minha espiritualidade.
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