“Agora, pois, temei ao Senhor e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito e servi ao Senhor. Porém, se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24:14,15).
Recentemente, um cristão alemão, que é taxista, foi multado em mil euros por fazer "publicidade religiosa ilegal". O motivo: tinha um pequeno adesivo no vidro do veículo que falava de Jesus. A maior prova da secularização da sociedade está exatamente no banimento de Cristo de qualquer espaço público. A religião ainda é tolerada, mas dentro das quatro paredes. O evangelho se encontra confinado, aprisionado aos templos. Não pode abandonar seu lugar de clausura sob pena de pesadas multas.
Estranhamente, mesmo antes de governos de sociedades outrora cristãs, como é o caso da Alemanha de Lutero, tomarem medidas anticristãs tão radicais, os crentes já fizeram isso. Há muito os chamados discípulos de Jesus deixaram de lado a prática de falar abertamente de seu Salvador. A fé foi individualizada e particularizada de forma tão enfática que simplesmente anulou qualquer impulso para se falar de Jesus a outros. A fé foi confinada ao coração de cada crente, Cristo aprisionado em cada alma. O crente o proíbe de sair, de ser exteriorizado. Confunde a guarda dos mandamentos e do próprio evangelho com algo que precisa ser guardado a “sete chaves”, colocado dentro de um cofre, escondido, fora da visão e do alcance de outros.
Aparentemente, faz-se questão de evitar qualquer tipo de palavra que denuncie a fé que se possui. A conversação cristã foi secularizada, Jesus e seus ensinamentos banidos das bocas dos chamados crentes. Essa constatação se torna ainda mais preocupante quando tomamos um dos principais elementos da antropologia bíblica, a doutrina sobre o homem: “Porque a boca fala do que está cheio o coração” (Mt 12.34). Nosso Senhor está afirmando que a boca extravasa aquilo que está em nosso coração.
O que for realmente importante, aquilo que preenche o nosso coração, será perceptível através do que falamos, de nossa fala. Os tesouros do ser humano são conhecidos pelos temas que mais ocupam a sua língua. Ora, se Cristo é o tesouro do crente, como não está naturalmente em suas conversas? Se é a Palavra de Deus que domina o nosso coração, por que ela não é citada espontaneamente naquilo que conversamos?
A espiritualidade da igreja foi trocada pela convivência pacífica com um mundo de trevas. A luz de Cristo no crente é propositalmente ofuscada, diminuída, escondida. O crente, descrito por Jesus como uma cidade toda iluminada no alto de um monte à noite, oculta sua luz, anulando sua conversação cristã. Qual seria o motivo de deliberadamente não se manifestar? Medo da perseguição? Certamente, pelo menos na sociedade brasileira, ainda não. Pelo menos, não o temor de ser preso ou morto por causa de Cristo. Seu medo é outro: de perder o conforto que possui, os sonhos de consumo, o emprego que o sustenta, de ser preterido pela sociedade, escanteado dos ganhos e riquezas que sonha alcançar um dia.
O crente de hoje se acostumou com uma religião na qual Deus é o servo. Busca ao Senhor para ter a vida mais tranquila que conseguir, suprido em todas as suas necessidades. É fato que a fidelidade a Cristo e ao seu evangelho não se enquadram nessa perspectiva, pois imporá a oposição do mundo. O crente fiel é aquele que abre a sua boca para falar, fazendo questão de afirmar a verdade evangélica. Todo comportamento inadequado, errado, que a igreja assume, acomoda-se em formatos legitimadores, que escondem incoerências terríveis.
É interessante notar como boa parte das igrejas de hoje, talvez a sua maioria, se envolva razoavelmente com “missões”. Tornaram-se “missionárias”. Adotam missionários, falam de missões. Isso é excelente! No entanto, essa disposição parece ter motivações que não são tão nobres: buscar dar à igreja o senso ilusório de que participa da expansão do reino. Como é isso possível? Mesmo cerrando meus lábios, vivendo meus dias sem dizer uma palavra sobre Cristo, sinto-me operoso no avanço do reino de Deus, pois pago para alguém fazer em lugar distante aquilo que eu mesmo não faço em meu próprio lugar? Minha responsabilidade de falar de Jesus é completamente esquecida e descumprida, mas pago para que outro fale por mim para outros povos? É isso?
A obra missionária só é coerente, sincera e verdadeira para aqueles que evangelizam onde estão, para aqueles apegados o suficiente a Cristo a ponto de transbordá-lo pela boca. Ora, se não tenho espiritualidade suficiente para comunicar a Cristo onde estou, que tipo de espiritualidade é essa que só apoia a pregação à distância? Não parece um tanto hipócrita? O empenho missionário por parte de muitos apenas mascara a negligência na evangelização pessoal, a falta da espiritualidade e da comunhão com Jesus necessárias para que se fale espontaneamente dele. Aparentemente, muito do que se afirma hoje sobre “missões” não passa de modismo de pessoas que contribuem para causas pelas quais não oram e não se envolvem, a tentativa de, por meio da observância hipócrita de algo aprovado, sentirem-se mais crentes.
A secularização da igreja é cada vez mais visível em sua opção pelo mundo, não exatamente por seus pecados, mas a vida materialista, a busca do material como sendo o principal, em detrimento da prioridade espiritual. João afirma: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 Jo 2:15). Proíbe o apego às coisas do mundo, não apenas ao pecado, mas também às coisas lícitas.
O diabo descobriu que estimular e instigar os crentes às coisas abertamente pecaminosas nem sempre funciona. Assim, também utiliza a estratégia de incentivá-los a cobiças que podem ser vistas como “lícitas”, como realização profissional, o acúmulo de bens, viagens etc. Tais coisas não se constituem pecado, mas passam a ser quando assumem a primazia da vida de um chamado crente, tornando-se aquilo para o que dedica a sua vida.
Eis a causa do confinamento do evangelho, do banimento de Jesus da vida prática dos crentes! Eles já fizeram sua opção, pelo mundo, pelo conforto, pelos bens, pela realização pessoal. Servem-se a si mesmos, completamente desinteressados em servir ao Senhor. Quando alguém que se diz crente assume esse perfil torna toda sua expressão religiosa pura hipocrisia, pois nada há ali de serviço sincero a Deus. Tudo não passará de uma religião de interesses pessoais, na qual o único objetivo é tentar extorquir do Senhor aquilo que domina e satisfaz o coração humano.
Lutemos contra a secularização, do mundo e da igreja! Façamos questão de manifestar Jesus em tudo o que fizermos, mesmo na vida profissional. Que todos saibam que você é um cristão. Não se omita! As consequências certamente virão, bem como, os doces frutos da fidelidade. No texto epigrafado, Josué, ao final de sua caminhada como líder na conquista da terra, exorta o povo a servir com integridade ao Senhor.
Todavia, oferece também a possibilidade de adorar aos deuses dalém do Eufrates, de onde Deus tirou Abraão, ou os deuses da terra de Canaã onde estavam, deuses criados por homens, para satisfazer as cobiças humanas. No entanto, fez questão de externar com veemência qual era seu compromisso inalienável: o Senhor! Que isso descreva também o que domina o nosso coração. Tenha um abençoado e fiel dia na presença de Jesus
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