Tenho encontrado tantas pessoas sofrendo por causa da ansiedade. A maioria padece por não ter um equilibrado autoconhecimento. Sem dúvida, devemos ansiar um pouco, isto é, querer e sonhar com algo maior. Mas não podemos deixar que a ansiedade tome conta de nosso ser. Acontece que a ansiedade costuma nos levar para lugares que ainda nem existem. O pensamento corre, cria cenários, imagina perdas, ensaia respostas e transforma possibilidades distantes em sofrimento presente. Muitas vezes sofremos por aquilo que nunca chegará a acontecer. Enquanto isso, a vida real, simples e disponível, passa diante de nós com sua luz discreta. Aproveitar a luz do sol não é ingenuidade diante dos problemas. É sabedoria para não entregar o coração a medos que talvez sejam apenas sombras. Há preocupações legítimas, mas existe uma fronteira delicada entre preparar-se e adoecer por antecipação. Deus nos chama ao presente porque é nele que sua graça se oferece. Não recebemos força para todos os amanhãs imaginários, mas recebemos amparo para o hoje que nos foi confiado. Quando antecipamos tudo, perdemos a capacidade de perceber o pão deste dia, a presença de quem está perto, o descanso possível, a beleza que ainda resiste. A quarta-feira interior pede discernimento. É preciso perguntar ao coração quais preocupações merecem cuidado e quais apenas roubam paz. Nem todo pensamento precisa ser seguido. Nem todo medo merece ser obedecido. Há uma liberdade que nasce quando voltamos ao instante atual e respiramos dentro dele com mais confiança. Deus está também na luz simples que atravessa a janela, no gesto cotidiano, na tarefa possível, na conversa que acalma. A vida não se resolve toda de uma vez. Ela se acolhe passo a passo. E quando deixamos de sofrer por futuros imaginados, o presente recupera sua dignidade. Então descobrimos que a luz do sol não elimina todas as incertezas, mas recorda ao coração que ainda há beleza suficiente para viver este dia com presença.
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