“E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento; e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o unguento” (Lc 7.37, 38).
A culpa foi algo causado pelo pecado. Antes da desobediência adâmica o homem não tinha nada do que se arrepender. Mais do que não fazer nada de errado, era a experiência de uma consciência absolutamente limpa e tranquila. A atitude do primeiro casal ao se esconder do Criador logo após desobedecerem mostra a evitação da culpa, pois sua admissão significa legitimidade da punição. Por isso, a reação do primeiro casal à presença de Deus passou a ser o padrão do comportamento humano. O pecador foge constantemente da presença de Deus.
O deus que ele geralmente busca é aquele projetado pelo próprio coração, que lhe é sempre favorável, que nada cobra, muito menos julga e condena. Assim, em sua evitação da culpa, ao invés de fugir do erro e do pecado, o homem foge de Deus. Certa vez, aconselhei duas jovens supostamente crentes que soube frequentarem as baladas. Quando falei da santidade necessária aos crentes, ambas reconheceram a incompatibilidade do procedimento delas com a fé, e "nobremente" decidiram abandonar a igreja. Ao invés de abandonar o pecado, abandonaram Deus.
A culpa é experiência essencial para o arrependimento. Não há como se arrepender daquilo que não nos sentimos culpados. No entanto, devemos considerar também a extensão da consciência da culpa. As Escrituras contam um episódio dramático, mas igualmente maravilhoso, referido no texto em epígrafe, quando uma mulher chamada "pecadora" entrou na casa de um fariseu e lavou os pés de Jesus com suas próprias lágrimas. A referência no Novo Testamento à "mulher pecadora" significava uma prostituta. Certamente, trata-se de alguém que até recentemente havia vivido na impiedade, mas agora tinha sido alcançada pela graça divina.
O fariseu que convidou Jesus para ir a sua casa deixa clara sua prévia indisposição com o Senhor não sendo educado na recepção. Fazia parte da boa educação oferecer uma bacia com água para que o convidado pudesse lavar seus pés. Jesus faz menção a isso na sequência do texto, destacando a descortesia de seu anfitrião: “E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos” (Lc 7:44). Naquela época, o calçado padrão eram as sandálias de tiras. Nas poeirentas e quentes ruas da Palestina, a ação do suor fazia com que se formasse lama nos pés, tornando necessário lavá-los quando se entrava na casa. Claramente, a mulher anteriormente "pecadora" não entrou na casa com o objetivo de lavar os pés de Jesus, mas sim de ungi-los com bálsamo. Porém, foi impulsionada por sua avassaladora e incontida gratidão, amor ilimitado por seu Salvador.
Um fariseu colocaria uma prostituta literalmente aos pontapés para fora de sua casa. O fato de não o ter feito sugere que, ao ver que ela se dirigia a Jesus, esperava para ver qual seria a sua reação. Quando a mulher nota que seu Senhor não havia sido recebido com a honra e o respeito devidos, atirou-se a seus pés e, chorando copiosamente, lavava o barro com suas muitas lágrimas, removendo-o com seus cabelos. Ela já chegou à casa chorando copiosamente. A gratidão que sentia a arrastava inevitavelmente. Sentia-se limpa, transformada por um real arrependimento, aquele da conversão. Percebia com clareza cristalina o que ela tinha sido e louvava a Cristo por ter sido lavada, purificada de seu pecado. Jesus afirma sobre ela que a quem muito é perdoado, igualmente muita é a gratidão. Isso é o que nos impulsiona a assumirmos a atitude de servo, exatamente aquilo que aquela mulher fez, cumprindo papel de escravo ao lavar os pés de Jesus. A Cristo só se serve por meio de verdadeiro amor: “Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama” (Lc 7:47).
Aí está a importância da culpa! É exatamente declarando-nos culpados, assumindo integralmente nossa culpa diante do Senhor, sem atenuantes, sem explicações, é que teremos a noção correta do tamanho do perdão que recebemos, e, consequentemente, da extensão do amor de Deus por nós. O fato de os crentes atuais não mais confessarem os pecados como deveriam faz com que desenvolvam uma noção equivocada de si mesmos, como se fossem melhores do que são. Não se sentem culpados! Por isso, são muito pouco agradecidos ao Senhor pelo perdão que receberam em Cristo. Não amam ao Senhor com a intensidade que deveriam.
Adoremos a Cristo com amor extravasado, ilimitado, isto é, com toda nossa vida. Compreendamos o tamanho de nossa dívida, de nossos pecados, a merecida condenação, e adoremos ao Senhor pela salvação graciosa que recebemos. Tenha um abençoado dia na companhia de Jesus
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