Ando atento, pois me restam poucas folhas no calendário. Devo redobrar o sentido que dou a cada instante.
Com cautela, procuro eternizar os segundos. Tempo, minha única riqueza não-renovável, não merece escorrer entre os dedos.
Meu passado me feria como a quina de uma pedra, mas eu não me dava conta, daí carecer de um tempo moroso para burilar as tais pedras.
A calma se tornou um bálsamo a ser joeirado. Entendo: pausar me cura. Os hiatos, estou consciente, me ajudam a não disperdiçar o que restou de alma em mim.
Me exilo em desertos e faço do imperativo de amar o único encargo com que me preocupar.
Careço de bonança. Sei que ainda tenho algumas oportunidades de escutar o ribeiro quando se espreme entre pedras e não vou desperdiçá-las; para isso, abro mão dos barulhos para prefirir as sinfonias mais suaves.
Se permiti que se grudassem abatimentos e azedumes no meu coração, eu os exorcizo.
Cansei de sentir os cardos da desilusão. Quero agora vou me presentear com a terapia de passear em jardins (já me falaram de pessoas refeitas pela beleza das flores e pelo cheiro da mata).
Eis porque volto a sentar em cadeiras de balanço. O sossego me ajuda na tarefa de me coincidir comigo mesmo; - lembro da minha infância e do vaivém da rede a ranger nos ganchos, aquietando meu sono.
O Eclesiastes acertou ao avisar que há tempo para tudo.
Hoje foi tempo de lamentar; tempo de respirar uma nostalgia triste.
Dói arrancar um pouco do que plantei, mesmo que o faça para não perder quem eu amo.
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