Como todos, gostaria muito de eliminar aquelas dores existenciais que insistem marcar presença em meus dias. Elaborar nossas dores é uma exigência que a vida nos impõe. Pensando bem, somos portadores de um grande mistério. Às vezes, uma pergunta simples nos incomoda mais do que esperávamos. Respondemos depressa, fechamos a conversa e depois ficamos sem entender a intensidade daquele desconforto. Pode haver uma tristeza antiga procurando palavras, uma despedida para a qual não tivemos tempo, uma humilhação que aprendemos a tratar como se não tivesse importância. Nem tudo o que nos atravessa encontra compreensão na hora em que acontece. Em certos períodos, continuar vivendo já consome as forças disponíveis. O que não conseguimos acolher naquele momento merece ser recebido com delicadeza quando houver condições. Não precisamos transformar essa demora em mais uma acusação contra nós mesmos. Dar nome ao sofrimento é um trabalho de aproximação. Uma conversa cuidadosa pode ajudar a distinguir a falta que sentimos da raiva que apresentamos, o medo da indiferença que fingimos. Há dores que pedem acompanhamento profissional, e procurar esse cuidado pode fazer parte de uma caminhada de fé. Deus não se ofende com a nossa necessidade de ajuda. Podemos levar à oração justamente aquilo que ainda não conseguimos organizar, sem a obrigação de apresentar uma história resolvida. O amor começa muitas vezes nessa disponibilidade para escutar o que estava sendo evitado. Com tempo e companhia, algumas lembranças encontram um lugar menos doloroso. A experiência continua pertencendo à nossa história, mas já não precisa falar por nós em todos os encontros. Tornamo-nos mais atentos ao presente e mais capazes de reconhecer quem está realmente à nossa frente. Esse amadurecimento não obedece a um calendário uniforme. Há avanços discretos, retornos e pausas necessárias. Cada gesto de cuidado tem seu valor. E talvez a paz comece assim, quando uma parte ferida da nossa vida encontra acolhimento suficiente para deixar de pedir socorro sozinha.
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