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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

PALAVRA

 

“ELOÍ, ELOÍ, LAMÁ SABACTÂNI?”

INTRODUÇÃO
O clamor de Jesus na cruz
O clamor de Jesus na cruz,
“Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”
está entre as palavras mais citadas e, ao mesmo tempo, mais mal interpretadas de todos os Evangelhos.
Ao longo da história do cristianismo, essa frase foi frequentemente isolada do seu contexto bíblico e usada para sustentar a ideia de que, naquele momento, o Pai teria se afastado do Filho.
A cruz, então, passou a ser interpretada por muitos como sinal de ruptura, rejeição divina ou até mesmo fracasso do plano de Deus.
Essa leitura, porém, não nasce da totalidade das Escrituras, mas de uma escuta fragmentada, emocional e desconectada do pano de fundo bíblico que moldava o pensamento de Jesus e de seus ouvintes.
A interpretação de abandono absoluto reflete mais as expectativas humanas sobre como Deus deveria agir do que aquilo que o próprio texto bíblico revela.
Quando a frase é lida fora da tradição de Israel, fora dos Salmos e fora da linguagem profética, ela perde seu verdadeiro peso teológico e passa a comunicar algo que o próprio texto jamais afirma de forma direta.
Jesus não fala de forma aleatória, impulsiva ou emocionalmente desconectada da revelação bíblica.
Cada palavra pronunciada na cruz carrega sentido, intenção e memória.
Ao clamar essas palavras,
Jesus cita conscientemente o Salmo 22, um texto amplamente conhecido, recitado e memorizado na fé de Israel.
Não se trata de um grito sem referência, mas de uma citação precisa, carregada de significado histórico, espiritual e profético.
O clamor da cruz, portanto, não aponta para um abandono real de Deus, mas convoca o leitor a retornar às Escrituras. Ele chama à memória o caminho do justo sofredor, a fidelidade de Deus mesmo em meio ao sofrimento extremo e a esperança que nasce exatamente no ponto onde, aos olhos humanos, tudo parece perdido, fracassado ou encerrado.
Compreender o que Jesus diz na cruz exige mais do que sensibilidade emocional. Exige escuta bíblica, memória das Escrituras, familiaridade com os Salmos e fidelidade ao testemunho profético.
A cruz não revela um Deus ausente ou falho, mas um Deus que cumpre suas promessas de maneira inesperada, transformando dor em redenção, humilhação em exaltação e aparente derrota em esperança eterna.
A PALAVRA DE JESUS NA CRUZ
Jesus fala na cruz.
Os Evangelhos registram esse momento com solenidade e peso.
Mateus escreve:
“E, perto da hora nona, clamou Jesus em alta voz: ‘Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?’”
(Mateus 27:46)
Marcos registra o mesmo acontecimento, preservando as palavras no idioma original de Jesus:
“Eloí, Eloí, lamá sabactâni?”
(Marcos 15:34)
Ambos os Evangelhos interrompem a narrativa da crucificação para destacar essa única fala.
Em meio à dor física, à zombaria pública e ao sofrimento extremo, o texto desacelera e chama a atenção do leitor para essas palavras específicas. Nenhuma explicação é dada naquele instante. Nenhuma interpretação acompanha o clamor.
O texto não corrige, não suaviza e não tenta proteger o leitor do impacto da frase. Ele simplesmente apresenta o clamor pronunciado na cruz, deixando o leitor diante de uma pergunta inevitável:
o que Jesus quis dizer com essas palavras?
A resposta não vem imediatamente.
Ela não é simples, nem superficial.
Ela exige escuta atenta, memória das Escrituras e atenção ao conjunto da fé de Israel.
O caminho para compreender esse clamor começa exatamente onde Jesus aponta: não fora da Bíblia, mas dentro dela.
A MORTE DO MESSIAS E A IDEIA DE DERROTA
Para muitos em Israel, o Messias não poderia morrer.
O libertador esperado deveria vencer, governar, restaurar e reinar.
Ele deveria libertar Israel do domínio estrangeiro, estabelecer justiça visível e inaugurar uma era de glória nacional. Sofrer, ser rejeitado e morrer não faziam parte do imaginário messiânico dominante.
Por isso, a morte de Jesus soava como fracasso absoluto.
O próprio Jesus revela esse conflito quando começa a preparar seus discípulos:
“Desde então começou Jesus a mostrar aos seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, padecer, ser morto…”
(Mateus 16:21)
A reação de Pedro é imediata:
“Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo…”
(Mateus 16:22)
Essa reação revela que, para os discípulos, a morte não era apenas indesejável; ela destruía completamente a esperança messiânica. Um Messias crucificado não se encaixava em nenhuma expectativa. Soava como derrota total.
Na mentalidade do período, um Messias verdadeiro deveria vencer. Morrer, e ainda morrer crucificado, parecia prova definitiva de falsidade.
A própria Torá parecia confirmar essa leitura:
“O que for pendurado no madeiro é maldito de Deus.”
(Deuteronômio 21:23)
À luz desse texto, muitos concluíram que Jesus, ao morrer no madeiro, estava sob maldição divina e, portanto, não poderia ser o Ungido de Deus. A cruz passou a ser lida como evidência de fracasso espiritual e rejeição divina.
O problema, porém, não estava nas Escrituras, mas na leitura seletiva delas.
O SALMO 22 E O CLAMOR DO JUSTO
É nesse contexto que o clamor da cruz ganha sentido pleno.
“Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”
(Salmo 22:1)
O Salmo 22 é um salmo de lamento escrito por Davi. Ele começa em profunda dor, mas não termina nela. O justo expõe sua aflição diante de Deus, recorda a fidelidade passada e clama por intervenção.
“Em ti confiaram nossos pais; confiaram, e tu os livraste.”
(Salmo 22:4–5)
O próprio salmo afirma de forma explícita:
“Pois não desprezou, nem abominou a aflição do aflito, nem ocultou dele o rosto; antes, quando clamou, o ouviu.”
(Salmo 22:24)
Portanto, o sentimento de abandono não equivale a abandono real. O lamento expressa dor, não ausência de Deus.
O salmo descreve zombaria, desprezo e exposição pública:
“Todos os que me veem zombam de mim; estendem os lábios e meneiam a cabeça.”
(Salmo 22:7–8)
Ao citar esse salmo, Jesus responde diretamente à acusação implícita de falsidade. Ele mostra que o justo pode sofrer injustamente, que o sofrimento não anula a eleição e que Deus permanece fiel mesmo quando o justo é humilhado diante dos homens.
DEUS NUNCA ABANDONA
Ao longo de toda a Escritura, Deus afirma repetidas vezes que não abandona o seu povo.
“O Senhor teu Deus é quem vai contigo; não te deixará, nem te desamparará.”
(Deuteronômio 31:6)
“Pois tu, Senhor, nunca abandonaste os que te buscam.”
(Salmo 9:10)
“Não temas, porque eu sou contigo.”
(Isaías 41:10)
Nos Salmos, o “eu” muitas vezes é coletivo. Davi fala como indivíduo, mas também como representante de Israel.
Do mesmo modo, Jesus fala não apenas como indivíduo, mas como Israel concentrado em uma só pessoa.
“Mas Sião diz: O Senhor me desamparou…”
(Isaías 49:14)
A resposta divina é clara:
“Ainda que esta se esquecesse, eu, todavia, não me esquecerei de ti.”
(Isaías 49:15)
O clamor ecoa a dor histórica de Israel, especialmente nos momentos de exílio.
A cruz se torna um altar de intercessão nacional.
A CRUZ NÃO É ABANDONO, É CUMPRIMENTO
As palavras finais de Jesus confirmam isso:
“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.”
(Lucas 23:46)
“Está consumado.”
(João 19:30)
Confiança e cumprimento, não ruptura.
Da cruz à esperança final
O Salmo 22 não termina em dor, mas em vitória.
“Proclamarão a justiça dele a um povo que há de nascer, porque ele o fez” (Salmo 22:31).
Ao citá-lo, Jesus mostra que sua morte não contradiz o plano de Deus, ela o cumpre. O que parecia derrota torna-se exaltação.
“Humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou soberanamente” (Filipenses 2:8–9).
A Escritura afirma que a esperança do povo de Deus não termina na dor.
“Todos os limites da terra se lembrarão e se converterão ao Senhor” (Salmo 22:27–28).
“Mas chegastes ao monte Sião, à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial” (Hebreus 12:22–24).
A cruz não é o fim da promessa, mas o caminho pelo qual ela se cumpre.
A morte de Jesus foi interpretada por muitos como prova de que Ele era um falso Messias.
Essa leitura nasce de expectativas equivocadas, não das Escrituras.
Ao citar o Salmo 22, Jesus demonstra que sua morte não é rejeição divina, mas cumprimento do caminho do justo sofredor.
A cruz revela que Deus nunca abandonou Davi, nunca abandonou Israel e nunca abandona aqueles que confiam nele.
O Messias não falha; Ele redefine vitória.
O caminho que passa pela morte conduz à Jerusalém celestial, onde a fidelidade de Deus se manifesta plenamente.

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