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quarta-feira, 4 de março de 2026

AMADURECER

Conheci bem cedo a maturidade. Sou grato por ter sido encaminhando para a autonomia, ainda quando tinha pouca idade. Sempre saúdo a maturidade pois ela mostra a melhor versão da vida. Mas, em muitos momentos da caminhada, a dor parece oferecer uma espécie de justificativa silenciosa. Ela nos faz sentir corretos, validados, quase protegidos por uma narrativa em que fomos feridos e, portanto, temos o direito de permanecer ressentidos. No entanto, existe um ponto delicado em que essa permanência deixa de ser defesa e passa a ser prisão. A maturidade não nega que houve injustiça, desentendimento ou abandono. Ela reconhece os fatos, mas recusa transformar a própria identidade em torno deles. Alimentar a dor é revisitar a cena inúmeras vezes, reforçar pensamentos que inflam o coração e permitir que o passado continue governando o presente. Há uma satisfação oculta em estar certo, mas essa satisfação cobra um preço alto quando impede a cura. Crescer espiritualmente é compreender que ter razão não é o mesmo que ter paz. A razão pode até organizar argumentos, mas não consola a alma ferida. A paz, ao contrário, nasce quando escolhemos não prolongar aquilo que já machucou o suficiente. Deus nos convida a uma liberdade mais profunda do que a simples vitória moral. Ele nos chama a confiar que soltar o ressentimento não é perder dignidade, mas recuperar a leveza. Quando deixamos de nutrir a dor como prova de que estávamos certos, abrimos espaço para um novo olhar sobre nós mesmos e sobre os outros. O coração começa a perceber que amadurecer é também renunciar ao desejo de vencer discussões antigas para finalmente vencer a própria amargura. E nessa entrega silenciosa, a alma encontra um descanso que nenhuma justificativa seria capaz de oferecer. 

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