Desde pequenos aprendemos o que a vida pode e deve ter. Não fomos iniciados na construção da pessoa que gostaríamos de ser. O ter sempre foi mais salientado e priorizado. Bem sabemos que existe como que um hábito silencioso de adiar a própria vida. Esperamos o momento ideal, as condições perfeitas, um sinal claro que nos autorize a começar. Criamos marcos imaginários como se a existência precisasse de um ponto de partida especial, quando, na verdade, ela já está em curso desde sempre. Enquanto aguardamos, os dias passam com discrição, oferecendo oportunidades simples que muitas vezes não reconhecemos ou não valorizamos. Há um equívoco profundo em acreditar que o extraordinário está sempre à frente, distante, condicionado a algo maior que ainda não aconteceu. No entanto, o dom de existir já carrega em si uma grandeza que não depende de circunstâncias. Deus se revela nesse presente contínuo, nesse agora que insiste em se oferecer mesmo quando o ignoramos. Quando o coração compreende isso, algo começa a se transformar por dentro. A espera perde força, a ansiedade diminui e nasce uma disposição mais verdadeira de viver. Não é preciso que tudo esteja resolvido para dar o primeiro passo. Há uma coragem silenciosa em começar com o que se tem, com o que se é, mesmo que ainda incompleto. Aos poucos, o caminho vai se desenhando, não antes, mas durante a própria caminhada. A vida deixa de ser expectativa e passa a ser experiência. E nesse movimento, a alma descobre que não precisava de um grande acontecimento para começar, porque o maior de todos já foi dado: estar vivo, com a possibilidade de escolher, de tentar, de viver com verdade aquilo que pulsa dentro do coração. E quando essa consciência se torna viva, o presente deixa de ser espera e passa a ser encontro com aquilo que realmente importa. E nesse encontro, a vida ganha sentido, direção e uma paz que não depende do futuro. Viver é um ato profundamente extraordinário.
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