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quarta-feira, 8 de julho de 2026

HOMEM


“A estultícia do homem perverte o seu caminho, mas é contra o Senhor que o seu coração se ira” (Pv 19.3).


Recentemente, um jovem da igreja externou sua dificuldade, realmente legítima, de responder aos questionamentos de amigos ímpios que dizem: “se Deus é onipotente, por que ele permite o estupro, o assassinato?” Essa é outra forma de externar o ateísmo. Parece ser um silogismo, mas que se deixa a conclusão implícita. Sua forma completa, provavelmente seria: a) se há um Deus, ele é onipotente; b) Deus, por ser onipotente, não permitiria o exercício do mal; c) não há Deus.

Na verdade, o que ocorre é exatamente o processo descrito por Salomão no verso epigrafado. O pecador joga a culpa dos males que os próprios homens cometem em Deus. Isso é realmente absurdo! Um pecador cobra de Deus os atos feitos por outro pecador exatamente como ele! Na verdade, acusar o Senhor de ser autor do mal é pura dissimulação, é desviar a culpa que é exclusiva do próprio homem. Para entendermos isso, é importante retrocedermos à queda.

O mundo que Deus criou não era exatamente este no qual vivemos. Ele é o Criador, sem dúvida, mas não o criou cheio de imperfeições, especialmente morais, como se vê no ser humano. O mundo criado por Deus era santo e perfeito, regido por uma ordem criacional perfeita. Não havia morte, nem presa e predador. Reinava vida e paz em toda a Criação. A paz é a expressão maior da vida plena e perfeita, aquilo que Jesus veio trazer ao mundo.

A morte não foi ordenada por Deus. Veio de carona com o pecado. Paulo, referindo-se ao pecado diz que ele entrou no mundo: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12). O pecado, na concepção do apóstolo dos gentios, vem de fora da Criação, algo que não existia, ou existia apenas conceitualmente, como o contrário do caráter santo de Deus. A morte existe devido ao pecado. Dessa forma, entende-se que também ela não fazia parte da Criação original, mas igualmente entrou no mundo, trazida exatamente pelo pecado.

Certamente o pecador também reclamará da justiça de Deus, quando ouve que todos nós caímos em Adão. Isso está referido no verso acima, quando Paulo afirma: “porque todos pecaram”, isto é, naquele único homem todos pecamos. O reconhecimento de injustiça no fato de sermos representados por Adão na queda é como se os pecados que o homem pratica hoje fosse algo que o torna vítima e não autor e agente do mal. Sim, é verdade que estávamos todos em Adão. Ele era nosso representante e nosso pai. Por isso, de forma representativa e seminal, quer organicamente como pensava Irineu ou meramente como seus descendentes, estávamos em Adão. 

No entanto, há um outro sentido muito importante que devemos entender. Adão não era um representante no sentido estrito como geralmente entendemos. Ele não era apenas um indivíduo escolhido por Deus, como primeiro homem, para pautar dali em diante, por seus atos, o que seria a humanidade. Na verdade, ele era a humanidade na prova diante da serpente. Isso quer dizer que a humanidade foi reprovada, não simplesmente Adão. O ser humano fracassou na prova que lhe foi dada.

Entendamos, portanto, que a conclusão a que chegamos é que qualquer outro homem teria feito o mesmo. Todas as mulheres teriam ouvido o convite da serpente, bem como, todos os homens teriam cedido ao convite de sua mulher naquele contexto. Somos culpados não meramente por um crime imputado de outro a nós, mas como se fôssemos nós mesmos, pois se você ou eu estivéssemos lá, teríamos feito a mesma coisa.

Não seja arrogante o suficiente para acusar Adão de ter fracassado. É uma outra forma de dizer que se fosse você, teria sido diferente. Será? De forma alguma. Ao olhar para a queda de Adão e Eva veja o seu próprio fracasso, a rejeição de toda a humanidade, pois de fato, caímos em Adão. Estávamos nele mais do que como um simples representante, mas como se fôssemos nós mesmos. O mesmo argumento se aplica à multidão dos judeus que escolheu Barrabás e gritou quanto a Jesus: “crucifica-o, crucifica-o!” Se fôssemos nós que estivéssemos lá, em nosso estado de impiedade, teríamos feito a mesma coisa.

Culpados pela queda, somos plenamente responsáveis pelos nossos atos. Todo homem é livre para agir, espelhando as vontades de seu coração. De uma forma inexplicável, a liberdade de agência dos pecadores e mesmo dos demônios não contraria os decretos eternos de Deus, que já pré-ordenou todas as coisas, neste caso, valendo-se de sua vontade permissiva. Deus é onipotente e justo. Poderia simplesmente ter aplicado sumariamente o juízo quando Adão caiu e ter mandado o primeiro casal sem escalas para o inferno. No entanto, se tivesse feito isso, todos nós não existiríamos.

Assim, o Criador cumpre com aquilo que disse. Quando Adão come o fruto proibido, o casal morre física e espiritualmente. Sua justiça é aplicada, mas não sem misericórdia: Deus estende o momento da eternidade em que se deu a queda, criando o nosso tempo, tempo que passa, regido pela morte e pelo fim de todas as coisas. Esse tempo é como parênteses na eternidade. Quando nosso Senhor voltar no último dia, retornaremos à eternidade, dando continuidade à história da humanidade perfeita, agora redimida e desfrutando da presença física de Deus: nosso Senhor Jesus Cristo.

Assim, o que se vê no presente mundo é uma existência amaldiçoada pelo pecado, onde a dor, o sofrimento e a morte, muitos causados pela agência maligna do próprio homem, são o comum e o normal. O que dissemos há pouco, que o próprio exercício do mal é dirigido por Deus dentro de seus próprios decretos, significa dizer que ele orienta mesmo isso para a concretização de sua vontade.

Na vida dos crentes, tem-se o princípio de José: vendido como escravo por seus próprios irmãos, foi caluniado pela mulher de Potifar, ficou anos na prisão, até ser alçado ao cargo de governador da maior potência de sua época. Quando ele finalmente se revela a seus irmãos, diz que foi pelo propósito de Deus que tudo isso aconteceu, para que pudesse acolher sua família naquele terrível momento de fome: “Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra e para vos preservar a vida por um grande livramento. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito” (Gn 45.7,8).

Deus tem o costume de transformar o mal em bem. Isso não isentou a culpa dos irmãos de José por terem feito o que fizeram. Da mesma forma, o Senhor organiza a vida de seus filhos para que todas as experiências, boas e más, resultem crescimento e edificação. Cumpre-se o que Paulo afirma na Carta aos Romanos: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).

Notemos, assim, que aquilo que afirma Salomão no verso epigrafado é a essência do coração pecador. O homem, por sua estultícia, sua insensatez, transtorna o seu próprio caminho, mas é contra Deus que se revolta. Essa é a dinâmica de seu pensamento, o raciocínio que utiliza para se inocentar dos próprios males praticados e lançar a culpa no Senhor. Cuidado com a blasfêmia natural do velho homem. Quando atingido pela dor e o sofrimento, tenha a plena certeza de sua culpa e a justiça de tais acontecimentos.

Somos pecadores, embora regenerados e que procuram andar sinceramente nos caminhos do Senhor. Dobrar a nossa vontade e reconhecer a justiça dos acontecimentos são básicos para evitar a amargura exacerbada. A depressão e a amargura geralmente são resultantes não apenas da dor, mas da não-aceitação daquilo que ocorreu. O próximo passo é a decepção com o Senhor e o questionamento da fé. Tenha um excelente dia na presença do Deus glorioso que já te salvou

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