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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

MILAGRES


“Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido” (Mt 11:20).

Estamos acostumados a reconhecer como “bem” tudo aquilo que nos favorece. Usamos expressões como: “vai dar tudo certo” ou questionamos: “foi tudo bem?”, tomando a nossa vontade como crivo para medir os acontecimentos. Consequentemente, passamos a reconhecer como “bênção” tão-somente aquilo que está em harmonia com o que desejamos ou esperamos. Esquecemo-nos que Deus é Pai zeloso e dá sempre boas dádivas a seus filhos. Com frequência desconfiamos da vontade do Senhor. Sempre que enfrentamos uma situação difícil, quando podemos sofrer alguma perda significativa, quer de pessoas, quer de coisas que nos apegamos, tememos que Deus pense diferente de nós. Para ir “tudo bem”, para estar “tudo certo”, tem que ser do jeito que imaginamos ou pretendemos.

 A situação se agrava ainda mais quando compreendemos o mundo em que vivemos. É um mundo de morte. Nada é mais próprio a esta existência do que o sofrimento. É necessariamente assim, pois trata-se de mundo de trevas, amaldiçoado pelo pecado. Deus havia dito a Adão que se ele comesse o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal inevitável e irreversivelmente morreria.

A maldição do homem também se abateu sobre a terra de onde foi tomado, passando a caracterizar toda a Criação. Tudo o que anteriormente vivia agora morre. A morte é típica desta existência. Como separação, afetou todos os relacionamentos, trazendo dor e sofrimento: ruptura entre o homem e o seu Criador; separação entre homem e mulher, o divórcio; desavença entre irmãos, quando Caim mata Abel; inimizade entre pai e filho, pois Adão se vê forçado a banir Caim de sua presença. O próprio ambiente no qual o homem foi introduzido e dele foi derivado, a terra, passou a lhe ser hostil, trazendo-lhe não apenas intempéries, como tempestades, furacões, tsunamis, terremotos, secas etc., como também doenças e pestes. O ser humano, por sua vez, se tornou o maior predador da Criação, agindo contra si mesmo na destruição gananciosa do lugar onde vive.

 Esse estado de coisas leva o homem a muitos sofrimentos. Toda dor é lembrança da queda, da entrada do pecado no mundo, do desequilíbrio causado na Criação pela maldição do pecado. O pecado não foi criado por Deus, mas a opção humana. Constitui-se em tudo o que não se harmoniza ao Criador. Dessa forma, afastando-se do doador de toda vida e originador de toda existência, o ser humano opta pela morte. A morte entrou no mundo de carona com o pecado.

 É necessário que o crente seja maduro, isto é, realista. O pessimismo não é bíblico, como se tudo resultasse dor e sofrimento. Por sua graça comum, o Senhor concede alegrias terrenais mesmo ao maior dos ímpios. Bem como, o otimismo não é bíblico, como se as coisas sempre convergissem para a experiência dos melhores prazeres e as maiores alegrias. Ser realista é saber que não apenas os maiores sofrimentos, mas também, as maiores bênçãos, podem nos alcançar repentinamente. Tudo está debaixo do estrito propósito de Deus, que não resolve nada na história, antes, já a tem escrita e determinada, fazendo com que tudo simplesmente frua na existência que hospeda em seu Ser.

 As incertezas quanto aos acontecimentos não devem se transformar em desconfiança nas intenções de Deus. Temos que descansar nos Senhor, crendo em seu grande amor. Precisamos reconhecer que ele tem sempre o melhor para nós, e que nada supera a eternidade com ele como bênção para nossa vida. É muito importante experimentarmos isto: a segurança em seu grande amor consumado na cruz do Calvário.

 É comum, devido a todo sofrimento, dor e aflição peculiares a esta existência, que o crente crie a expectativa de que o Senhor deverá intervir na história, de forma sobrenatural, para abençoar, modificando abrupta e repentinamente uma situação, tornando-a favorável ao clamor de seus filhos. Isso é o que geralmente chamamos de “milagre”. Esperamos reconhecer nisso a bondade de Deus para conosco. É preciso entender o que tal expectativa significa para um crente.

Por definição, milagre é sobrenatural, ou seja, implica a ocorrência de algo impossível, o que diante da lógica humana seria absurdo. Se se trata de algo possível, ainda que infinitesimamente possível, não é exatamente miraculoso, pois é possível pelos meios naturais. Milagre é uma intervenção de Deus subvertendo as leis da Criação, da própria existência, para que algo diferente do normal aconteça. Assim, se algo tido como miraculoso pode ser explicado pela razão, certamente não é milagre. O milagre é essencialmente sobrenatural.

 Faz parte do conceito de milagre ser extremamente raro. Ser “sobrenatural” significa também isso, pois se ocorresse com frequência seria “natural”. Entendamos, portanto, que miraculoso não denota somente o meio extraordinário, a intervenção de Deus na história subvertendo a ordem criada, mas ainda a raridade de sua ocorrência. A Bíblia foi escrita em mil e seiscentos anos. Se somarmos todos os milagres nela não chegará à metade disso, nem mesmo para que pudéssemos dizer que o Senhor fez um milagre por ano. Dessa forma, como crentes maduros e sinceros, somos levados a crer em milagres sim, pois Deus é poderoso para realizá-los, mas que provavelmente não acontecerão, pois não são comuns, mas sobrenaturais.

 Por que o Senhor não interfere com frequência na história para modificar sobrenaturalmente as situações? Ele não nos ama? Com certeza, Deus nos ama a ponto de sacrificar seu próprio Filho, de assumir nosso lugar na própria condenação. Acontece que ele não quer prolongar essa nossa existência miserável em um mundo caído. O desejo pelo milagre esconde nosso apego exagerado a esta terra. Do ponto de vista divino, o que é melhor para seus filhos: que sejam curados e permaneçam sofrendo em um mundo de trevas, ou sejam recolhidos para a glória, onde experimentaremos aquilo que nem olhos viram, nem ouvidos ouviram sobre tamanha glória e bem-aventurança? Como pai, o que você gostaria para seu filho? Deus faz milagre sim, mas melhor do que o milagre que prolonga essa existência miserável é a vida eterna que já recebemos em Cristo. Deus não se compromete a prolongar nossos dias nesta terra, pois nos ama demais para isso.

 Mesmo a busca de milagres que não implicam a cura, mas a solução de problemas impossíveis, também mostram apego a esta terra, se entendemos que estamos querendo fazer do mundo lugar mais aprazível, ao invés de almejar com todas as nossas forças a morada eterna e definitiva com Jesus.

 O texto epigrafado mostra a dureza do coração dos habitantes de Cafarnaum, Betsaida e Corazim, por não terem reconhecido o Cristo e se arrependido, mesmo testemunhando tantos milagres. Milagres jamais levam à fé, como o próprio Jesus deixa claro na resposta que dá ao rico no inferno, na passagem do rico e Lázaro. Personificando Abraão, diz o Senhor: “Abraão, porém, lhe respondeu: Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Lc 16:31). Os sinais e prodígios realizados por Jesus tinham como objetivo fazer com que o povo da aliança, que deveria ser constituído por crentes, reconhecesse que ele era o Messias. Por isso que Jesus fala de “arrependimento” às cidades impenitentes.

 Devido a tudo o que dissemos até aqui, o Senhor não se dispõe a intervir na história constantemente, meramente para prolongar a presente existência amaldiçoada pelo pecado, ou dar contornos mais positivos a ela, estimulando qualquer apego. Devemos buscar as coisas do alto, onde Cristo vive, e pensar acima de tudo nelas. Precisamos acumular tesouros no céu, não aqui na terra. O crente é aquele que vive com o brilho da glória nos olhos. Muito melhor do que qualquer milagre é a vida eterna que já temos com Jesus. E Deus, acima de todos, sabe disso... Tenha um abençoado dia na presença de Cristo 

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