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sábado, 3 de outubro de 2026

ESPAÇO

 Afeto que oferece espaço

 

 A vida é um dom grandioso. Todos somos capacitados para amar. Não nos percamos com ilusões que geram frustrações. Amor próprio é a condição para amar adequadamente. Olha só: um convite lembrado com carinho pode iluminar uma tarde inteira. Faz bem perceber que alguém pensou em nós, guardou um lugar à mesa, quis partilhar uma alegria. O afeto encontra muitas maneiras de aparecer, e nem todas são grandiosas. Há quem demonstre amor preparando um café, perguntando pela viagem ou escutando uma história já conhecida. O que alimenta o vínculo é a presença sincera que atravessa esses gestos. Quando estamos muito carentes, porém, podemos atribuir a uma atenção ocasional o tamanho de um compromisso que nunca existiu. Esperamos por mensagens, justificamos indiferenças repetidas e deixamos nossos dias suspensos no interesse incerto de alguém. Reconhecer isso pode entristecer, mas também devolve clareza ao coração. Merecemos relações nas quais seja possível conversar sobre o que sentimos e perceber cuidado nas atitudes. Cada pessoa tem limites e maneiras próprias de demonstrar afeto. Nem uma demora significa desamor, nem uma palavra bonita garante disponibilidade. É o conjunto da convivência que nos ajuda a compreender o lugar oferecido. Deus nos olha com uma dignidade que não depende de sermos escolhidos por determinada pessoa. Permanecer nessa certeza pode nos ajudar a fazer escolhas menos dolorosas. Há amigos, familiares e novos encontros que talvez estejam recebendo pouca atenção enquanto insistimos numa ausência. Voltar o olhar para essas presenças amplia a vida. Também podemos cuidar da própria companhia, reencontrar interesses, aprender a desfrutar de uma tarde sem esperar que alguém a autorize. A ternura cresce melhor onde existe liberdade para chegar e verdade para permanecer. Aos poucos, o coração distingue a promessa que inventou do carinho que realmente recebe. E pode descansar junto de quem faz da proximidade um gesto simples, tão natural quanto aproximar mais uma cadeira da mesa. 

 


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