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terça-feira, 31 de março de 2026

ABANDONO

 Abandonado para que não sejamos abandonados

"À hora nona, clamou Jesus em alta voz: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? Que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Mc 15.34).
Como entender o abandono do Filho de Deus pelo seu próprio Pai? Aos olhos do homem moderno, isso é não apenas inexplicável, mas intolerável. A morte de Cristo é o impensável do inacreditável. Quem poderia supor que o Deus eterno, presente em todo universo, porém maior e transcendente a ele, poderia nascer como um homem? Esse primeiro impensável, ainda que admitido, certamente levaria à conclusão lógica de que viveria eternamente. No entanto, nasceu exatamente com o objetivo de morrer. É história naturalmente inacreditável para o ser-humano, crida apenas mediante obra do Santo Espírito que infunde e desperta nos eleitos a fé verdadeira. A fé cristã passou também a receber esse tipo de ataque por parte de não crentes, bem como, de falsos crentes e falsos mestres atuais.
Rubem Alves, ainda bastante lido em nossos dias, que foi um pastor que abandonou seu suposto chamado devido às suas muitas heresias, chegou mesmo a afirmar, confirmando sua apostasia, que não podia crer em um Deus que matava seu próprio Filho na cruz. Aliás, concluiu que se Deus existe, então é fraco, pois não tem poder para evitar o nosso sofrimento. Arremata, dizendo que então ficamos com saudades de um Deus que não existe, o Todo-Poderoso. Por incrível que possa parecer, há chamados crentes que leem, e até supostos pastores que ainda citam, Rubem Alves em suas preleções. As acusações contra o amor de Deus são, logicamente, infundadas. Por meios corretos e santos, o Senhor conduz soberanamente todas as coisas para o seu devido fim, afirmação importante para não confundirmos a ética divina com a maquiavélica. Maquiavel, em sua mais famosa obra: “O Príncipe”, afirma aquilo que passou a ser a norma do homem atual: “os fins justificam os meios”.
No entanto, Deus não age por qualquer meio. Sempre opera por caminho de justiça. Foi exatamente para a execução da justiça que envia seu Filho. Entendamos que para o Pai não foi algo fácil. Ver seu Filho encarnado viver em meio a pecadores, enfrentar toda a afronta e escárnio, oposição, ser torturado e morto na cruz, só prova o quanto o ser-humano é mal e digno do inferno. No entanto, o Filho, vindo sim em obediência ao Pai, mas também espontaneamente, pois não há qualquer divisão, contradição ou disputa na Trindade (jamais esqueçamos que é um único Deus e não três deuses), realiza sua obra sabendo previamente qual é o inescapável resultado. No Getsêmani, quando seu corpo já tremia e sangrava antecipando o sofrimento da cruz, disse: “Agora, está angustiada a minha alma, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com este propósito vim para esta hora” (Jo 12.27).
O Salvador sabia exatamente qual era o propósito de sua vinda. Não era passear no mundo caído por alguns anos, ensinando algo aos pecadores. Qual seria seu interesse nisso? Tirar férias nas trevas? Ainda que fosse a vida mais magnífica que este mundo caído possa prover não se compara a um segundo da existência como Deus, eterna e em plena glória, que desfrutava em sua natureza divina. Em outras palavras, o assumir a humanidade era prejuízo, humilhação, não algo prazeroso ou glorioso em si. A glória está em se submeter a tudo isso por amor ao Pai e aos eleitos, concedendo vida eterna, desfazendo as obras do primeiro Adão. Nosso olhar para cruz deve nos conduzir à compreensão de nossos pecados, de nossa culpa, não de qualquer injustiça do Pai eterno praticada contra o Filho. Afinal de contas, quem efetivamente matou a Cristo foram os homens, dentro de sua livre-agência dominada por suas próprias cobiças.
O próprio Jesus repreendeu a mulheres que choravam angustiadas quando o viram todo surrado, assumir a cruz em direção ao Calvário: “Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos!” (Lc 23.28). Jesus sabia que a apostasia do povo traria sobre eles pesado sofrimento e a inevitável condenação. Temos que olhar para a cruz como o ato conjunto de amor da Trindade, quando historicamente o Deus Trino se sacrifica na humanidade de Cristo. Há um só Deus! Embora haja três Pessoas na Trindade, formam um único ser divino. A divindade não morre, não sofre como homens. No entanto, de um jeito completamente acima de nossa compreensão, viu o seu propósito concretizado. O que podemos dizer é que não foi agradável ao Senhor. Aquele que não tem prazer na morte do ímpio jamais poderia ter visto impassível a morte de seu Filho: “Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel?” (Ez 33.11).
Todo aquele que olha para a cruz só o pode fazer com amor e ódio. Pode olhar com amor, tendo a graça de Cristo atingido o seu peito, percebendo que tudo o que fez Deus foi com o objetivo de nos salvar de nossa própria tragédia. Experimentará também ódio, de seus pecados, de seu antigo modo de vida, verdadeira ojeriza do velho homem e do engano diabólico. Todavia, há aqueles que olharão apenas com ódio, de Deus, por descortinar e explicitar tão claramente a vileza do ser-humano em seu amor e apego ao pecado e à transgressão. Toda a vergonha e impotência do homem, a sua patética morte por ter existido como deus para si e nada poder fazer naquele momento. Certamente elegerão como a melhor estratégia de defesa, o ataque. Cristo sempre foi e sempre será não apenas a Pedra Angular da igreja, seu alicerce e Salvador, mas também a Pedra de Tropeço para todo incrédulo.
Entendamos que Jesus era sacerdote e vítima simultaneamente. Ele, sumo-sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque e o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, na cruz oficiou-se a si mesmo, entregando-se à morte como único sacrifício aceitável a Deus. Os pecados dos crentes do Antigo Testamento não foram vingados. Foram mantidos em suspenso por Deus, a fim de que também recaíssem sobre Cristo. A cruz é, nesse sentido, um vórtice temporal, atraindo para aquele momento o passado e o futuro. Todos os pecados já cometidos pelos eleitos, mantidos em suspenso, foram atraídos para ali, bem como todos os pecados dos eleitos que haveriam de nascer. O incomparavelmente maior se tornou o menor de todos. Jesus experimentou o inferno na cruz. Embora o inferno seja, de fato, um lugar, ele significa estar sob a presença punitiva de Deus, na completa ausência da graça.
Aqueles que acreditam que "o que aqui se faz, aqui se paga," deveriam entender que, embora essa terra seja uma existência amaldiçoada por Deus por causa do pecado, mesmo os ímpios ainda estão sob a graça comum de Deus. Por isso, vivendo continuamente na carne e no pecado, por graça o Senhor lhes concede momentos prazerosos, que alegram o coração deles. Imagine uma vida apenas de sofrimentos, sem interrupção, em intensidade tamanha garantida por uma existência imortal. Isso é o inferno. Como cita o apóstolo Paulo: "Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam" (1 Co 2.9) – o mesmo pode ser dito sobre aqueles que não o amam. O grito insólito de Jesus manifesta o seu inferno. Todas as vezes que nosso Senhor se dirige a Deus nos evangelhos, o chama de “Pai”. O único momento que o chama pelo nome genérico de "Deus" é nessa ocasião: Eloí, Eloí, em aramaico, preferível à leitura em hebraico de Mateus: Eli, Eli. O que levou Jesus a soar sangue no Getsêmani e se angustiar como antecipação da morte, não foram as dores físicas que saberia que experimentaria, mas o momento em que “visitaria” a masmorra de Deus, o inferno, pregado à cruz.
Devemos entender que era isso o que nós, com justiça, deveríamos sofrer eternamente. No entanto, Jesus foi abandonado na cruz por seu Pai por alguns momentos, para que nós não fôssemos abandonados para sempre por ele. Precisamos compreender as reais dimensões do sacrifício de Cristo para que jamais achemos que, nas ocasiões de nossos sofrimentos, Deus tenha nos abandonado. Jamais! Isso é menosprezar o sacrifício de Jesus, desconfiar da eficácia de sua morte. Algo muito presente nos crentes hodiernos, pessoas acostumadas a pensar que Deus existe para simplesmente os servir e amparar, é a desconfiança quanto à vontade divina. Na iminência de grande sofrimento, desconfia-se que o Senhor nos permitirá sofrer e interpretamos isso como uma espécie de sadismo ou desprezo. Não entendemos que o fato de sermos pecadores faz com que sejamos dignos das maiores dores e que mesmo o sofrimento tem importante papel pedagógico em nossa vida. Lembre-se sempre: Deus jamais nos desampara. Diante da dor, das perdas, dobre sua vontade, humilhe-se e aceite.
Olhe para a cruz com amor e ódio! Ame a Deus e tudo o que ele já efetuou em sua vida, e odeie tudo o que de mal ainda há em você. Se assim for, você experimentará a paz de Deus, que excede todo entendimento, sarando e fortalecendo seu coração. Os sofrimentos dessa vida não se comparam ao peso da glória eterna. O paraíso não é aqui. Todavia, se nos levantarmos contra a vontade de Deus, apenas aguçaremos ainda mais a agonia da alma. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus

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