Total de visualizações de página

segunda-feira, 30 de março de 2026

CURA

  Gosto de olhar para o amanhã, sem esquecer o hoje da minha vida. Confesso que não visito muito o passado. Resumo o meu ontem com uma palavra: superação. Vejo tanta gente lamentando os acontecimentos passados. Eu agradeço por não ter conhecido a preguiça. Acontece que a vida guarda dentro de nós marcas que não podem ser desfeitas. Experiências vividas, palavras ouvidas, escolhas feitas. Tudo compõe a história que carregamos. Muitas vezes, o desejo de cura vem acompanhado da esperança de esquecer, como se apagar o passado fosse a única forma de seguir em paz. No entanto, a memória não desaparece, e talvez nem precise desaparecer. O que se transforma é o modo como nos relacionamos com aquilo que foi vivido. Aquilo que antes provocava dor intensa pode, com o tempo e o cuidado interior, ganhar novos significados. A ferida não precisa ser negada para deixar de doer. Ela precisa ser compreendida, acolhida e integrada à própria história. Deus não nos pede que finjamos que nada aconteceu. Ele nos convida a olhar com misericórdia para cada parte do caminho, inclusive aquelas que ainda carregam marcas. Quando permitimos esse olhar mais compassivo, algo se reorganiza dentro de nós. O passado deixa de ser um peso constante e passa a ser uma fonte de aprendizagem. A dor não define mais quem somos, mas revela o quanto fomos capazes de atravessar. Curar é transformar a relação com a própria história, é deixar de lutar contra o que já passou e começar a caminhar com aquilo que foi vivido de maneira mais leve. Esse processo não acontece de uma vez, mas se constrói aos poucos, em cada gesto de acolhimento interior, em cada momento em que escolhemos não nos ferir novamente com lembranças antigas. Assim, o coração encontra liberdade. Não porque esqueceu, mas porque aprendeu a lembrar sem se prender. E nessa nova forma de olhar, a vida se abre novamente, mostrando que é possível seguir adiante com mais paz, mais consciência e mais inteireza. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário