Pensei ser bonança o que era apenas o olho do furacão, quando os ventos parecem dar uma trégua, permitindo-nos enxergar, mas não o tempo suficiente para contabilizar os prejuízos resultantes de sua fúria. Não era paz. Era vácuo. Um silêncio ensurdecedor. A ilusão de que o pior já passara, quando, na verdade, a segunda investida da tempestade já se anunciava, com ventos soprando em sentido contrário.
Que me restava, senão aproveitar aquele breve hiato para verificar o que ainda permanecia de pé?
Distraído com o telhado arrancado e as janelas em estilhaços, deixei de notar as colunas que resistiram bravamente à ventania.
Caminhei descalço, imprudente, e feri os pés nos cacos de vidro espalhados pelo chão. Faltou-me cautela nos passos, e sobrou-me dor.
Por um instante, culpei-me pela violência dos ventos, como se me coubesse responsabilidade por sua impiedade.
Esqueci-me, porém, de algo essencial: se colunas e paredes ainda permanecem, é porque os alicerces foram bem lançados enquanto a casa era erguida.
Meu desalento momentâneo foi prenúncio de novas rajadas. E então me pergunto: o que restará quando o furacão concluir sua obra?
Quando virá, enfim, a verdadeira bonança? O sossego que não se desfaz? A paz que permanece?
Até lá, resistam, ó colunas!
Porque não há tempestade tão absoluta que não possa servir de cenário para a revelação da Perfeição em Pessoa. Ele é Aquele de quem se diz que até os ventos e o mar lhe obedecem. Se está no barco, convida-nos a confiar. Se está fora dele, chama-nos a caminhar sobre as águas e a encarar a fúria dos ventos.
Seu propósito subsistirá. O amor verdadeiro prevalecerá sobre mal-entendidos e meias verdades. E o perdão, por fim, triunfará sobre as mágoas e as decepções.
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