Total de visualizações de página

quinta-feira, 26 de março de 2026

EMPENHO

 “Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma. Se mais vos amo, serei menos amado?” (2 Co 12.15).

É interessante como os apóstolos entenderam a morte de Cristo: dedicação diuturna ao cumprimento do propósito do Senhor. Quando Jesus expulsou os vendilhões do Templo a primeira vez, João registra a compreensão dos apóstolos: “Lembraram-se os seus discípulos de que está escrito: O zelo da tua casa me consumirá” (Jo 2.17). Foi sua perfeita dedicação à ordem de seu Pai que o levou ao martírio. É provável que a referência à “Casa do Senhor” não seja meramente uma alusão à restauração da ideia correta do que significava o Templo para o judeu, bem como, sua correta relação com a antiga religiosidade de Israel, mas a indicação clara do verdadeiro Templo espiritual que significava sacrifício, a composição do Corpo de Cristo, que é a Igreja.
Na sequência de tal afirmação, o próprio Jesus faz a correlação entre seu corpo e o Templo, quando diz: “Jesus lhes respondeu: Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei” (Jo 2.19). Sua natureza humana é Templo! Na verdade, no novo Templo de sua ressurreição se abrigariam todos os eleitos. Portanto, foi sua dedicação à congregação de todos os santos em um só Corpo, que é a Igreja, que o consumiria até a morte. Foi exatamente isso! Os judeus se enfureciam diante das insistentes investidas de Jesus para promover sua pregação, seus milagres que não davam trégua, mesmo diante de tantas ameaças que faziam, cada vez mais contundentes.
O que é natural para o ser humano pecador é o desânimo na medida em que suas condições vão se deteriorando. No entanto, precisamos compreender que a tendência à passividade ou à diminuição de intensidade devido a barreiras e dificuldades, conquanto naturais, não são corretas. Todos os reveses que encontramos na carreira cristã não têm como objetivo nos fazer estagnar, antes são ocasiões para acessarmos ainda mais as forças que procedem do Senhor, para vencer as dificuldades.
Precisamos entender as duas naturezas de Cristo. Tudo o que fez o Senhor não foi resultado de ser Deus, mas de ser homem perfeitamente crente. Para Deus nada é difícil! Se Jesus acessasse sua divindade sempre que lhe era conveniente não haveria sofrimento ou dificuldade. Na verdade, para ser nosso representante, seria “agir fora das regras” usar sua divindade durante seu ministério. Além disso, comprova-se o que temos dito pelo fato óbvio: se fosse agir como Deus não precisaria se encarnar, nascer como homem, assumir uma natureza humana. Ao fazer, deixa clara a sua intenção de viver a humanidade, não a divindade, entre os homens.
O “segredo” do ânimo inesgotável de Jesus, de sua resiliência e perseverança intermináveis, era a comunhão com o Pai. Como homem, Jesus recupera à perfeição a imagem e semelhança do Criador, levando isso ao ponto mais radical: ele é o próprio Deus em figura humana. A identificação da humanidade com a divindade é de tal ordem a ponto de Jesus afirmar: “quem vê a mim, vê o Pai” e “eu e o Pai somos um”. No entanto, o fato de ser homem Deus não significa que tinha em si poderes inatos que o isentavam de depender em tudo do Pai.
Vemos constantemente nos evangelhos sinóticos nosso Senhor passar longos períodos de oração, sozinho. Às vezes, levantava alta madrugada para orar. Outras, passava mesmo a noite em oração. À medida que se aproximava o seu martírio, mais tempo passava com o Pai. Mesmo na noite em que foi traído, o momento de sua prisão interrompeu uma intensa “reunião de oração” para a qual convocou todos os apóstolos. É verdade: “a carne é fraca”: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26.41).
Naquele ambiente, quando o Senhor disse isso aos seus discípulos no Getsêmani, não significava a natureza humana caída, mas as limitações das forças humanas, ou, a fraqueza inerente a todo pecador. Tal afirmação foi motivada pelo fato de seus apóstolos estarem sendo dominados pelo sono, ao invés de orar. Eles haviam tido um dia intenso de trabalho e o corpo cobrava as necessárias horas de descanso para “recarregar as baterias”, nada mais natural.
No entanto, se soubessem o que estava para acontecer, jamais teriam adormecido! Se nossa alma for sempre consciente da gravidade de nossa situação no mundo, do que significa a condição de ser um pecador, da exposição que sofre a igreja às perseguições, o que constantemente procura fazer o diabo, seguramente aprenderíamos a suplantar mesmo inclinações naturais e mesmo necessidades físicas para privilegiarmos a busca da comunhão com Deus. Essa é a única forma de nos mantermos firmes e perseverantes. Cansaço e sono, embora sejam esperados, ainda mais a quem trabalhou arduamente um dia inteiro, ainda assim são relativos. Não somos dominados pelo sono quando acordados por fato grave na madrugada. De igual forma, mesmo o cansaço vai embora se surgir algo realmente importante a se fazer, ainda que sejam já altas horas.
Aprendamos que a falta de dedicação na obra não se explica por dificuldades, mas por falta de comunhão com o Senhor. Curiosamente, uma geração que ocupa todo o seu tempo com coisas terrenais explica seu fracasso na obra do reino em termos de dificuldade, mesmo pela falta de tempo. Todavia, comumente vemos essas mesmas pessoas assumindo mais e mais coisas, se isso resultar algum acréscimo ou melhoria de ganhos. Para Cristo, seu alimento era fazer a vontade de seu Pai: “Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4.34). Entretanto, para a grande maioria dos que se chamam crentes em nossos dias, é buscar a concretização de suas próprias vontades. Tenho aprendido que insistências e cobranças não mudam o coração descomprometido, tão-somente, o retorno à intensa comunhão com o Senhor. É a experiência da prioridade do reino de Cristo e de sua justiça.
Que nossa dedicação seja resultado sempre de nosso amor e gratidão a Jesus, por ter ele deixado se consumir pelo zelo à Casa de Deus. Essa é a vivência que serve de modelo para nossa dedicação: gastar-se e se deixar gastar na obra do reino. Certamente, nada devemos fazer para reconhecimento de homens. Ao contrário, necessita ser o exercício do amor que exercemos para com aqueles que criticam, aqueles que se nos opõem, aos irmãos que nos rodeiam, mesmo inimigos, compreendendo suas e nossas fraquezas. Este é o zelo que devemos ter na obra, sem desanimar, sem esmorecer. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus

Nenhum comentário:

Postar um comentário