Todo mundo conhece alguém extremamente positivo, aquela pessoa que sempre solta um “bola pra frente”, “esquece isso”, “vai dar tudo certo”. Geralmente, é também quem carrega no status das redes sociais frases como “positividade sempre” ou “gratidão acima de tudo”.
A positividade, de modo geral, é vista como uma virtude. Ela é pregada quase como uma religião moderna, presente tanto no universo do coaching quanto na ideia contemporânea de sucesso. Mas, como diz o velho ditado, tudo em excesso faz mal, e até mesmo a positividade, quando levada ao extremo, pode se tornar tóxica. O mais curioso é perceber o quanto esse comportamento se tornou comum.
Há pessoas que acreditam que ignorar sentimentos ruins, traumas e problemas é uma forma de viver melhor. Como se fosse possível varrer para debaixo do tapete tudo aquilo que incomoda, machuca e gera sofrimento, sustentando a ideia de que, se não se fala sobre algo, aquilo deixa de existir. Como se silenciar a dor fosse suficiente para curá la.
É nesse ponto que mora o engano.
Ao vestir a máscara de vencedor e desprezar aquilo que dói, muitos acreditam estar deixando seus problemas para trás, apagando os, esquecendo os, superando os. Mas ignorar não é resolver. Essa tentativa de anestesiar o sofrimento, tratando o como um obstáculo inconveniente no caminho da felicidade, cria uma realidade artificial, uma vida aparentemente leve por fora, mas internamente confusa, frágil e mal resolvida.
Porque fugir do sofrimento, seja ele qual for, não fortalece ninguém. Pelo contrário, fragiliza. Tudo aquilo que é ignorado vai se acumulando em silêncio, criando raízes profundas, ganhando peso, ocupando espaço dentro de nós até transformar a própria existência em algo mais difícil de carregar.
Problemas só ficam para trás quando são enfrentados e resolvidos. E o sofrimento, por mais duro que seja, é um processo que precisa ser vivido, elaborado e incorporado ao ser. É justamente esse enfrentamento que amadurece, fortalece e transforma.
No entanto, a busca incessante pela felicidade deturpou profundamente tanto a ideia de autoconhecimento quanto a própria noção de felicidade.
Hoje, felicidade parece estar diretamente associada à conquista de status, reconhecimento e bens materiais. Enquanto isso, o autoconhecimento, que inevitavelmente exige confronto interno, silêncio, reflexão e, muitas vezes, sofrimento, foi sendo deixado de lado. Afinal, na lógica moderna, sofrer passou a ser interpretado como fracasso.
Mas essa é uma grande ilusão.
O sofrimento é um dos mecanismos mais profundos da evolução do eu. Ele conduz à reflexão, ao reconhecimento das próprias limitações, ao silêncio necessário para ouvir a si mesmo. São experiências fundamentais para quem deseja compreender a própria existência, e impossíveis de alcançar quando se vive permanentemente distraído, anestesiado por estímulos externos e pela necessidade constante de parecer bem.
Esse é, talvez, o retrato mais fiel do nosso tempo, felicidade a qualquer custo, mesmo sem saber exatamente o que felicidade significa.
É aí que nasce a positividade tóxica, na incapacidade de lidar com a tristeza, com a angústia e com o sofrimento, na ideia de que esses sentimentos são falhas a serem combatidas, escondidas ou ignoradas, quando, na verdade, são partes inevitáveis da experiência humana.
E essa cobrança por positividade não pesa apenas sobre o indivíduo, mas também sobre todos ao seu redor. Cria se uma cultura onde demonstrar dor, fragilidade ou tristeza passa a ser quase um erro moral. Como consequência, muitos parecem felizes socialmente, exibem leveza, sucesso e equilíbrio, mas, na intimidade, vivem em completo desalinho consigo mesmos, justamente porque nunca aprenderam a lidar com aquilo que sentem.
Porque, por mais que tentemos virar as costas para aquilo que nos machuca, essas dores continuam ali. Silenciosas, alimentando se do nosso silêncio, crescendo na sombra, até se tornarem tão grandes que já não podem mais ser ignoradas e, então, tornam se muito mais difíceis de enfrentar.
A positividade é bem vinda quando serve como ferramenta para atravessar momentos difíceis, não quando é usada como mecanismo para negá los.
Ser feliz não é viver anestesiado diante da realidade. Ser feliz é um processo íntimo, individual e profundamente consciente. Passa pela lucidez, pela reflexão, pelo enfrentamento das dores, pelo trabalho interno com nossas angústias e pela coragem de encarar aquilo que somos.
É isso que nos transforma em pessoas melhores, mais maduras, mais conscientes e mais capazes de resistir aos inevitáveis golpes da vida sem nos tornarmos reféns da superficialidade das dinâmicas sociais.
Às vezes, parece que tudo na vida moderna está organizado para retirar do indivíduo sua capacidade de pensar por si mesmo. Até mesmo a busca pela felicidade foi transformada em instrumento de alienação, criando pessoas incapazes de enxergar a realidade como ela verdadeiramente é.
Hoje, ser feliz deixou de ser uma possibilidade para se tornar uma obrigação.
E se você não estiver feliz, bem, dizem para deixar isso de lado, pensar positivo e acreditar que tudo vai dar certo.
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