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quinta-feira, 23 de julho de 2026

CRIADOS


“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Sl 90:12)

Fomos criados para evoluir. Não se trata de qualquer sentido darwinista, de uma evolução de essência, transmudados em outros seres, tornando-nos novas espécies. Somos o que somos: seres humanos agora caídos. Seremos, sim, transformados e recuperados ao padrão original de santidade e perfeição, mas isso, no último dia. A evolução a que me refiro diz respeito ao aperfeiçoamento, à depuração resultante da própria vida vivida na correta perspectiva. A cada dia que passa devemos ser melhores, isto é, deve resultar acúmulo da sabedoria. Esta pode ser descrita como a expertise da vida, o aprender a viver, a assimilação da correta forma de existir. A sabedoria não é mero resultado natural, mas algo que se alcança como resultado do correto direcionamento de nossos passos. Sabedoria é também “caminho”, um rumo certo do qual jamais devemos nos desviar.

À medida que passamos da infância para a adolescência e a idade adulta, as coisas que enfrentamos, as responsabilidades, vão se modificando, trazendo complexidade à vida. As próprias situações pelas quais passamos vão exigindo mais e mais de nós. É assim que somos maturados. São experiências. Na química, experiência é tentativa e erro, indicando o processo quando vai se testando várias possibilidades até se comprovar o resultado pretendido, ou não. Certamente, a existência do crente não pode ser descrita assim. Nós já temos “a fórmula” para a vida feliz: a Escritura. O que se espera de sua vida jamais será tentativa e erro, mas tentativa e acerto! Não precisamos testar atitudes, comportamentos, princípios, tão-somente, vive-los da forma indicada na Palavra. Cada situação que vivemos é colecionada como uma fonte de informação para atitudes futuras no enfrentamento de novas ocorrências. A experiência nos concede a base prática para aplicarmos aquilo que vivemos e aprendemos em situações pretéritas naquelas que agora nos desafiam.

No entanto, a verdadeira experiência não se dá meramente com acontecimentos, nem com a vida, mas com o próprio Deus. Aprendemos a viver diariamente com Cristo, olhando para ele, para as capacidades que advém de seu Santo Espírito. Conhecemos verdadeiramente o que significa “o temor do Senhor”. Assusta-nos a Providência divina. Ela intervém toda sábia, desconcertante para nós, deixando-nos por vezes embasbacados, atônitos, humilhados, impactados com nossa limitação para entender acontecimentos que estão muito acima, na esfera divina. Deus simplesmente interfere no mundo dos homens, que é, antes, seu mundo, o qual governa absoluto, inclinando todas as coisas para o cumprimento de seu propósito eterno. 

Assim, a sabedoria é acumulada nas experiências que colecionamos com o Senhor. Na medida em que os anos passam e vão se tornando mais pesados ao corpo que já começa a se sentir cansado, é também o inevitável peso da sabedoria, a grande bagagem de conhecimento aglomerado com Deus. Aprendemos que não é necessário correr tanto, agitarmo-nos de um lado para o outro freneticamente. Finalmente interiorizamos verdades que, nos afoitos tempos de mocidade, não parávamos para ouvir e assimilar: “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9.16). A idade nos ensina a depender mais de Deus, na verdade, unicamente de Deus, não de nós mesmos.

Este é o “processo evolutivo” pelo qual passamos: diariamente na presença de Jesus somos esculpidos por diversos acontecimentos. Nossa massa bruta original vai sendo modelada, tendo como molde o próprio Cristo. Somos mais e mais aperfeiçoados. A imagem e semelhança de Deus em nós vai assim sendo restaurada e mostramos Jesus com mais clareza em nosso procedimento.

Aquela arrogância natural da ilusória onipotência juvenil, da plenitude de nossas forças, cede espaço ao conhecimento da realidade, a finitude de nossas forças, nossa completa incapacidade de determinar os acontecimentos, a convivência com o irreversível, o inevitável, o imprevisível, o desconhecido. Somos humilhados e vamos assumindo nosso devido lugar na existência: o pó. Abdicamos de qualquer preeminência entendendo que servir é muito maior do que ser servido, dar é melhor do que receber. Amassados, espremidos, demolidos por tantos acontecimentos, a noção monolítica que tínhamos de nosso ser transforma-se na consciência de que não passamos de pó, seres insignificantes e pecadores que Deus amou, salvou, e agora usa, para sua glória. 

Curiosamente, a verdadeira sabedoria não é encontrada na segurança inabalável do ser em si mesmo, em suas próprias forças, mas na fraqueza de se perceber a realidade quanto a si mesmo, as próprias limitações e maldades, vida esvaziada de glórias humanas para assumir o compromisso com a glória que deve ser tributada unicamente a Deus. Sabedoria é trabalhar para o Senhor, não para nós mesmos: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas dá glória ao teu nome, por amor da tua misericórdia e da tua fidelidade” (Sl 115:1). Sejamos homens experientes e experimentados, que acumulam experiência para sabedoria, esculpidos por Cristo, por seu Espírito, nas várias situações desta existência. Que finalmente, em toda humildade e renúncia, alcancemos coração sábio. Tenha um abençoado dia na companhia de Jesus 

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