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quinta-feira, 23 de julho de 2026

GUARDO

 Guardo um inexplicável apego a Deus; eu o concebo enfronhado na existência.

Pertenço a um Senhor que recheia a vida de beleza; sou tomado de espanto e alumbramento ao imaginá-lo.


Guardo uma rejeição ao Deus que, feito condutor de locomotiva, só pensa em conduzir, sob seu controle absoluto, o comboio da história.


Guardo lampejos de uma intuição: o Espírito de Deus é dínamo que gera gentileza, benignidade, bondade, ternura, hospitalidade e calmaria.

O sopro divino combina mais com um coração materno do que com noções de vingança, justiçamento e condenação.


Guardo um lancinante desgosto ao ouvir frases sobre superação e empreendedorismo; não gosto de ver pessoas empurradas por outras, razoavelmente afortunadas, que desconsideram a extrema miséria dos cortiços, o desespero dos migrantes, a fragilidade dos povos indígenas acossados pela ganância de quem quer suas terras, bem como de crianças encurraladas em tiroteios nas favelas.


Guardo admiração por quem sai do caminho, por quem se expõe, por quem corre riscos e por quem perde a reputação porque tem fome e sede de justiça; sinto-me indigno de mencionar minha reverência por tais pessoas - o mundo não é digno delas.


Guardo um desdém intransferível por teologias que repetem absolutos e relativizam o amor de Deus, sempre com um “mas” depois do substantivo amor. Levo a sério sermos livres até para desacreditar do amor.


Guardo, com a idade, tantas coisas assim; elas consistem no meu tesouro.


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