À primeira vista, a expressão soa imprópria. Afinal, Deus poderia ter um inconsciente?
Se entendermos o inconsciente no sentido freudiano, a resposta é claramente negativa. Deus não possui desejos reprimidos, lembranças esquecidas, conflitos ocultos ou qualquer conteúdo inacessível à sua própria consciência. Ele conhece perfeitamente a si mesmo (Sl 147:5; 1Jo 3:20).
Ainda assim, a expressão pode ser mantida como metáfora. Não porque haja em Deus algo desconhecido, mas porque sua vida interior é infinitamente mais profunda do que qualquer linguagem consegue descrever (Rm 11:33).
É o próprio apóstolo Paulo quem sugere esse caminho ao escrever:
"Quem, dentre os homens, conhece as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está? Assim também ninguém conhece as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus." (1Co 2:11)
O paralelo é notável.
Há, no ser humano, uma dimensão profunda que Paulo chama de "espírito do homem". Há, em Deus, uma profundidade igualmente insondável, conhecida apenas pelo Espírito de Deus.
Séculos depois, a psicologia chegou à conclusão de que a consciência representa apenas uma pequena parte da vida psíquica. Freud chamou de inconsciente a vasta região da mente inacessível ao ego. Jung foi além, mostrando que ela não é apenas o depósito de conteúdos reprimidos, mas também o lugar onde brotam a criatividade, os símbolos, os arquétipos, a imaginação e a intuição.
Paulo, evidentemente, não falava em inconsciente. Seu horizonte era outro. Ainda assim, ambos convergem numa mesma percepção: o ser humano é muito mais profundo do que aquilo de que tem consciência.
Talvez seja essa profundidade que Paulo chama de espírito.
Essa aproximação ganha ainda mais força quando lemos:
"O espírito do homem é a lâmpada do Senhor, que esquadrinha todo o mais íntimo do ventre." (Pv 20:27)
A metáfora é belíssima.
O espírito humano é descrito como uma lâmpada acesa por Deus nas regiões mais profundas da pessoa. É por meio dessa luz que Ele alcança aquilo que nós mesmos desconhecemos a nosso respeito (Sl 139:23-24).
A psicologia diria que existem conteúdos inacessíveis à consciência.
A Escritura acrescenta que Deus alcança precisamente esses lugares.
O inconsciente deixa, então, de ser apenas o espaço onde escondemos aquilo que não conseguimos suportar. Pode ser também o lugar onde Deus nos encontra antes mesmo de nos encontrarmos.
Isso transforma nossa compreensão da experiência espiritual.
Não significa identificar Deus com o inconsciente, nem reduzir a ação do Espírito Santo aos processos da psique. Significa apenas reconhecer que Deus age na estrutura humana que Ele mesmo criou.
A graça não destrói a natureza.
Ela a ilumina (Jo 1:9).
O Espírito não disputa espaço com a psique.
Ele a atravessa.
Por isso Paulo afirma:
"O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus." (Rm 8:16)
Ele não diz que o Espírito fala apenas à razão ou às emoções.
Ele fala ao espírito.
É nesse nível que acontece o encontro.
O Espírito conhece as profundezas de Deus.
O espírito humano conhece as profundezas do homem.
A revelação nasce do encontro entre essas duas profundidades.
Essa chave de leitura também ilumina outra passagem de Paulo:
"Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus preparou para aqueles que o amam." (1Co 2:9)
Se o texto terminasse aí, Deus permaneceria inalcançável.
Mas Paulo prossegue:
"Mas Deus no-las revelou pelo Espírito; porque o Espírito perscruta todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus." (1Co 2:10)
É esse "mas" que muda tudo.
Os sentidos não alcançam.
A razão não descobre.
A imaginação, por si só, não concebe.
O Espírito revela.
O conhecimento de Deus não é fruto de uma conquista intelectual, mas de um encontro (Mt 11:27; Gl 1:11-12).
É nesse sentido que a expressão "Inconsciente Divino" pode ser compreendida.
Não como aquilo que Deus ignora sobre si mesmo, mas como a profundidade inesgotável do seu ser, acessível somente ao Espírito.
Se existe uma profundidade infinita em Deus e outra insondável no homem, a revelação acontece quando ambas se encontram.
Não é um diálogo entre duas ignorâncias.
É o encontro entre a plenitude consciente de Deus e a interioridade que o homem ainda desconhece em si mesmo.
Talvez seja por isso que tantas experiências espirituais se apresentem primeiro como imagens, e só depois como conceitos.
Primeiro são intuídas.
Depois compreendidas.
Primeiro são contempladas.
Só mais tarde encontram palavras (Hb 11:1; 2Co 5:7).
Isso ajuda a entender por que Deus tantas vezes escolheu os sonhos como veículo de revelação.
Enquanto estamos despertos, a consciência organiza, interpreta, censura e controla.
Durante o sono, essa vigilância diminui.
O inconsciente continua trabalhando.
Memórias são reorganizadas.
Emoções procuram integração.
Traumas seguem seu lento processo de elaboração.
Os símbolos emergem.
É exatamente essa linguagem que encontramos nas Escrituras.
José interpreta sonhos (Gn 40–41).
Daniel interpreta sonhos (Dn 2; 4).
José, esposo de Maria, recebe orientação em sonhos (Mt 1:20-24; 2:13,19-22).
Os magos são advertidos em sonhos (Mt 2:12).
Nada disso parece acidental.
Quando a consciência se aquieta, a alma continua falando. E, nesse silêncio, torna-se mais fácil perceber a voz daquele que fala ao espírito.
Nem todo sonho é revelação.
A maioria pertence ao funcionamento normal da psique (Ec 5:3).
Mas isso não significa que Deus esteja ausente desse processo.
Se o espírito do homem é a lâmpada do Senhor, Deus não precisa suspender o funcionamento da mente para comunicar sua vontade.
Ele pode iluminar a própria dinâmica da alma.
A graça não substitui a natureza.
Ela a transfigura (2Co 3:18).
É aqui que psicologia e teologia deixam de competir.
A psicologia procura explicar como os símbolos surgem.
A teologia pergunta por que, em certas ocasiões, esses símbolos parecem irradiar uma luz que não nasce apenas de nós.
Talvez os sonhos sejam justamente esse ponto de convergência.
O cérebro sonha.
A alma simboliza.
O Espírito ilumina.
As maiores revelações nem sempre começam como doutrinas.
Muitas vezes começam como sonhos.
Há verdades que chegam primeiro à imaginação e só depois alcançam o pensamento.
Há revelações que nascem como símbolos antes de se tornarem argumentos.
Talvez isso aconteça porque Deus, infinitamente maior do que qualquer conceito (Is 55:8-9), encontra na linguagem simbólica uma forma mais adequada de falar ao espírito humano.
Quando despertamos, pensamos que o sonho terminou.
Pode ser exatamente o contrário.
Talvez seja nesse instante que ele realmente comece.
O verdadeiro despertar não acontece quando abrimos os olhos, mas quando percebemos que, nas regiões mais silenciosas da alma, o Espírito de Deus já nos esperava muito antes de chegarmos ali (Sl 139:7-12; Ef 3:16-19).
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