“Não te glories no dia de amanhã, porque não sabes o que trará à luz” (Pv 27.1).
É curioso como o homem se tornou um “deus”. Assumiu esse posto diante de si mesmo e sua existência se passa como se ao menos algo no pecador, realmente, fosse divino. Embora constantemente seja confrontado com mortes, desde seres humanos como também animais, é capaz de desviar de si qualquer ideia sobre ela, como se fosse um evento que se deve lidar tão-somente quando finalmente chegar sua vez de deixar este mundo. A condição de todo pecador sem Cristo parece ser pura esquizofrenia, isto é, a perda do contato com a realidade. Uma vez que não tem em si poder ou capacidade de manter sua própria existência, viver nessa perspectiva faria do medo seu formidável companheiro. A qualquer momento algo terrível, imprevisto, irreversível, desconhecido ou inevitável pode acontecer.
Dessa forma, o homem caído vive pelo acaso, uma espécie de “roleta russa” da existência. Todos os dias gira o tambor, acreditando que, diante de tantas possibilidades, se tiver um pouco de sorte, evitará o tiro certeiro e mortal. É a segurança da “manada”, como se o destino predasse apenas alguns para justificar sua existência. Em meio a tantos seres humanos, bem pode ser que ele não seja o escolhido. Espera estar entre o grupo remanescente.
Todo homem sem Cristo vive a vertigem de passar seus dias no mais puro desconhecido e imprevisível. No entanto, paradoxalmente consegue viver com relativa segurança pela simples estratégia de jamais pensar na possibilidade de ser o próximo da fila dos que sofrem e dos que partem. De fato, não lhe resta nenhuma outra possibilidade diante do apagamento, do esquecimento, aquilo que acredita ser o fim de seus dias. Por isso, realmente pensa ser “melhor” a esquizofrenia, a perda do contado com a realidade. Assim, o homem vive como se fosse eterno.
De fato, a alma é imortal, mas não significa que a presente existência tenha o tamanho da eternidade. Como vimos, a evitação da morte está no subjetivo do ser humano. Ela influencia de tal forma seu comportamento, atos e palavras, que o leva a expressar a si e aos outros que sempre haverá um amanhã para ele. Essa é mais uma estratégia para afirmar sua própria existência. Ao simplesmente tratar o dia de amanhã como certo em sua existência, afirma que a morte não chegará. Certamente, todo ser humano sabe que morrerá um dia, mas a afirmação de atitudes futuras é uma forma de espantar a ideia da morte sempre para frente.
Dessa maneira, ao invés de afirmar algo absurdo, como a inexistência da morte, prefere simplesmente ignorá-la, como se desconsiderar sua realidade faça com que desapareça de sua consciência. Certamente, como diz o ditado: “o que os olhos não veem o coração não sente”. Reparem que há uma linha tênue entre a negação e a ignorância de um fato. Colocando isso de outra forma, se não posso negar algo, o ignoro. Tiago, meio irmão de Jesus, denuncia a tendência pecaminosa de afirmar a continuidade da própria existência, quando escreveu: “Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa” (Tg 4.14).
A perspectiva correta de vida é aquela que considera a inteira dependência de Deus não apenas para aquilo que se deseja futuramente fazer, mas para a própria vida. Não podemos garantir um segundo que seja de nossa existência. Confessar que a vida pertence a Deus e ser agradecido por ela é básico para podermos olhar para o futuro. Notemos, portanto, que antes de pensarmos nos resultados dos acontecimentos que estão à frente na linha do tempo, temos que pensar se existiremos nesta terra quando a hora da realização de tais coisas chegar.
O ser humano é muito complexo. Embora saiba que não pode determinar o seu futuro, age como se o pudesse. Vive a sua existência tranquilamente, projetando à frente as suas conquistas e realizações. O que o leva a isso? Talvez a consciência subjetiva de que, por mais que deseje dirigir os acontecimentos, não pode emplacar seu futuro da forma que deseja. Parece ser uma espécie de tentativa de “constranger” a realidade, como se o fato de viver despreocupadamente em direção àquilo que deseja fará com que todos os acontecimentos convirjam para tal.
Dessa forma, ao agir como se tudo concorresse para a realização de seus propósitos, finge e engana-se, entregando-se à maré dos acontecimentos, acreditando que as muitas ondas da vida o levarão àquilo que anseia. É como se alguém tentasse atravessar o Atlântico sem bússola ou qualquer conhecimento de navegação, aproando rumo àquilo que acredita ser a direção que o conduzirá ao destino que anseia. Se é estultícia acreditar que tem a capacidade de determinar o seu próprio futuro, tolice ainda maior é gloriar-se naquilo que nem mesmo ainda aconteceu. Toda jactância é condenada nas Escrituras.
No entanto, o desejo de glória é tamanho que, às vezes, antes mesmo de se concretizar o que anseia o coração humano, já se proclama a conquista como se fosse fato inevitável e irrevogável. O tempo é uma contínua surpresa, tanto para a alegria como para a tristeza. Aprendamos a viver esvaziados das ânsias de glórias como vistas no mundo. Que nossa única expectativa seja a consumação da vinda do reino de Deus, a volta de Cristo.
Em outras palavras, ansiemos pela glória de Deus, não a nossa própria. Que a nossa vida seja pautada pelo tempo de Deus, não por nossas enganosas e arrogantes projeções. O salvo não deve ter uma noção negativa da velhice, muito menos da morte. É muito melhor estar com Cristo do que viver a realidade de um mundo caído, amaldiçoado pelo pecado. Querer determinar o futuro é se assenhorar de um atributo divino. É usurpação e rebelião. Confiemos em Deus e no tempo que ele determinou para todas as coisas. A glória nos espera. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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