Disciplina no ensino
“É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige?” (Hb 12.7).
O ensino conforme conhecemos em nossa sociedade difere substancialmente em modelo e forma daquele que era ministrado nos tempos bíblicos. Geralmente, em nossos dias, a teoria difere da prática. Na verdade, nos cursos nos quais há necessidade de prática, via de regra, ocorrem em momentos diferentes. A prática se dá em ocasião e lugar separados. No entanto, na antiguidade, tanto entre gregos quanto entre judeus, embora também houvesse material de estudo, como os escritos dos filósofos, bem como, a Lei e os profetas e todo material rabínico, respectivamente, a ênfase era a prática, verdadeira educação para a vida.
De certa forma, o objetivo da educação entre judeus e gregos fundem-se no texto epigrafado. Olhando para a língua original neste capítulo doze da Carta aos Hebreus, desde o verso seis até o treze ocorrem diversas vezes as palavras “correção” e “disciplina”, tanto na forma de substantivo como na de verbo. Contudo, na língua grega, todas essas referências traduzem o mesmo termo: paidéia (παιδεία). A paidéia grega era a formação do homem grego.
Ela assumiu várias formas desde Homero, cerca de 900 a.C. Por meio de suas obras épicas, como Odisseia e Ilíada, Homero destacava os grandes feitos heroicos, sendo esse o primeiro modelo vivido pelos gregos. Ainda que se notasse que determinado feito claramente ocasionaria a morte, pereceriam sem problema. A vida era sacrificada em troca da eternização da memória. Essa era a glória buscada. Depois o modelo mudou algumas vezes, destacando o padrão guerreiro, focado em Esparta, e por fim, o citadino habitante da república em Atenas. Neste caso, especialmente Platão foi um grande influenciador.
É interessante que a cultura grega surge como possivelmente a única que se preocupava com a formação de um cidadão segundo um molde estabelecido, não exatamente, mas semelhante ao que vemos entre os judeus. Desde o Antigo Testamento, a Lei foi estabelecida para modelar todo cidadão do reino, promulgada também na vida de Cristo como padrão para todo cristão, o exemplo do cidadão do reino dos céus. Pois bem, entendamos, portanto, que quando o Autor aos Hebreus utiliza o termo paidéia, não está falando de correção, mas de educação, da construção de um crente maduro, preparado.
Os destinatários da Epístola aos Hebreus não estavam em pecado, necessitando de pesada correção para endireitar os caminhos. Embora houvesse certo desânimo que trouxe como consequência o problema de estagnação espiritual, semelhante ao que Paulo relata que ocorreu entre os coríntios, naquela que chamamos de Primeira Carta, a solução dada pelo Autor de Hebreus foi diametralmente oposta à do apóstolo dos gentios. Paulo identifica o problema como segue: “Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo. Leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque ainda sois carnais” (1 Co 3.1, 2).
Já o Autor aos Hebreus, com linguagem semelhante, afirma: “Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido. Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal” (Hb 5.12-14).
No entanto, enquanto o apóstolo dos gentios parece retroceder aos primeiros ensinamentos, diz o Autor ao Hebreus: “Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito” (Hb 6.1). O caminho indicado aqui é de progressão, não de regresso às coisas básicas. Aquilo que o Autor aos Hebreus está destacando é a ênfase na revelação neotestamentária, a plenitude da verdade, especialmente na Pessoa e obra de Cristo. Este é o sumo-sacerdote de um tabernáculo celestial, aquele que já nos introduziu no Santo dos Santos. Essa é a fé no Cristo glorificado, plena revelação de Deus, Filho de Deus superior aos anjos, consumador de aliança muito superior a Moisés, que se estabelece como sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque. Portanto, crer nele concede forças para enfrentar e vencer todas as vicissitudes ou adversidades desta vida, não apenas os problemas comuns a todos os homens, como doenças e problemas materiais e familiares, mas também a oposição e perseguição deste mundo.
Aí está a paidéia, a disciplina, a dedicação necessária, o preparo para praticar a fé diante de todas as dificuldades. Essa educação se dá na forma de “pai e filho”, mostrando a enorme preocupação do Senhor de formar em nós verdadeiros crentes preparados para a vida. Essa é uma das maiores provas de seu amor para conosco. A falta dessa dedicação implica ausência do amor de Deus. Portanto, devemos olhar para as dificuldades como a forma de treinar a fé, colocá-la em prática, meios que o Senhor permite para aprendermos mais e mais dele. Diante de toda dor, perda, dificuldade ou problema, devemos nos lembrar de Cristo e de sua obra perfeita.
Confiemos firmemente naquele que é em si a consumação de todas as promessas de Deus. Como diz o Autor aos Hebreus mais abaixo: “Por isso, restabelecei as mãos descaídas e os joelhos trôpegos; e fazei caminhos retos para os pés, para que não se extravie o que é manco; antes, seja curado” (Hb 12.12, 13). Firmemos nossas pernas! Coloquemos nossas mãos ao serviço! Não vivamos como aqueles que tropeçaram e estão com pernas bambas para cair. Não desanimemos! Vivamos de tal forma que não apenas produzamos nossos frutos de justiça mesmo diante das dificuldades, como também, deixemos exemplo para aqueles que se mostram fracos. Deus regra a nossa vida, nos prepara, nos disciplina nesse sentido, para que sejamos fortes. Os problemas são as únicas formas de se evidenciar o quão “prontos” estamos. Tenha um excelente dia na presença do Senhor
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