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domingo, 14 de junho de 2026

MOMENTOS

 Há momentos em que viver exige mais do que coragem. Exige confiança.


Todos os dias entregamos partes de nós a alguém. Entregamos tempo, afeto, expectativas, sonhos. Depositamos nas mãos de outras pessoas aquilo que temos de mais precioso sem perceber que, muitas vezes, estamos assinando contratos invisíveis.


Fazemos isso porque ninguém consegue viver em permanente estado de alerta. Confiar é um ato necessário. É a ponte que nos permite atravessar a solidão e encontrar o outro.


Mas toda ponte precisa de pilares.


O problema começa quando confundimos esperança com evidência. Quando acreditamos que a bondade de alguém é real apenas porque desejamos que seja. Quando projetamos virtudes que nunca foram demonstradas. Quando enxergamos profundidade onde existe apenas aparência.


A vida, afinal, é feita de cordas invisíveis.


Cada vez que confiamos em alguém, colocamos uma dessas cordas em suas mãos e nos posicionamos na outra ponta. Quem segura a corda assume uma responsabilidade enorme, porque sabe que existe alguém dependurado nela. Alguém que pode ser sustentado ou abandonado. Alguém que pode continuar em segurança ou despencar no vazio.


O problema é que nem todos compreendem o peso dessa responsabilidade.


Há quem segure a corda com firmeza e faça de tudo para que você não caia. Há quem a segure apenas enquanto é conveniente. E há aqueles que, por egoísmo, indiferença ou crueldade, simplesmente a soltam.


Então entregamos as chaves da nossa casa interior a quem sequer aprendeu a cuidar da própria.


E um dia descobrimos que nem todas as mãos acolhem. Algumas apenas tomam. Nem todos os abraços protegem. Alguns aprisionam. Nem toda companhia deseja nossa chegada ao destino. Há quem caminhe ao nosso lado apenas para observar onde iremos cair.


As maiores feridas raramente são provocadas por inimigos. Quase sempre vêm daqueles a quem demos acesso ao que havia de mais íntimo em nós.


E quando a confiança é quebrada, não é apenas uma relação que se rompe.


É a corda que escapa das mãos de quem prometeu segurá-la.


E quando isso acontece, não é apenas o corpo que despenca. São os sonhos. São as expectativas. São as certezas que construímos sobre as pessoas e sobre o mundo.


Algo dentro de nós também se estilhaça.


A espontaneidade se recolhe.

A esperança aprende a desconfiar.

A alegria perde um pouco da sua leveza.

O coração passa a olhar para cada novo encontro como quem examina os escombros de uma antiga tragédia.


Por isso, antes de entregar sua corda a alguém, observe.


Não tenha pressa de chamar alguém de amigo.

Não tenha pressa de chamar alguém de amor.

Não tenha pressa de fazer de alguém um porto seguro.


O tempo revela o que os discursos escondem.


Caráter não se conhece pelas promessas feitas nos dias ensolarados, mas pela forma como alguém permanece quando chegam as tempestades.


Veja se a pessoa tem força para sustentar o peso da confiança que você lhe entrega. Veja se ela compreende a responsabilidade de manter as mãos firmes quando você estiver vulnerável na outra ponta.


Confiança não é um presente que se oferece de uma vez. É uma construção que se faz tijolo por tijolo.


E quanto mais valiosa for a parte de você que será entregue, mais importante é saber quem está do outro lado para recebê-la.


Porque algumas pessoas seguram a corda com tanta firmeza que se tornam abrigo para a nossa vida.


Outras a soltam sem hesitar e nos deixam cair de alturas das quais nem sempre voltamos os mesmos.

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