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sábado, 19 de setembro de 2026

OLHO

  Quando olho para trás, percebo que a coragem proporcionou muitos avanços. Existe uma fortaleza que faz avançar e acreditar na vitória da vida. Mas há dias em que a força se parece com uma casa em silêncio. Nada de grandes conquistas, nenhuma certeza extraordinária. Apenas alguém que abre a janela, prepara alguma coisa para comer e procura atravessar as horas com o cuidado possível. Quem olha de fora talvez não perceba quanto esforço existe nesses gestos. Nós mesmos, acostumados a reconhecer apenas o que impressiona, podemos tratar com desprezo a coragem discreta de continuar. A dúvida costuma diminuir o valor do que já enfrentamos. Faz esquecer as vezes em que encontramos uma saída, aceitamos ajuda ou suportamos uma espera difícil sem perder completamente a ternura. Olhar para essas lembranças não exige transformar a própria história numa coleção de vitórias. Também houve quedas, medos e dias sustentados pelos braços de alguém. Essa companhia faz parte da nossa força. Existe maturidade em admitir que hoje precisamos de descanso, de conversa, de uma presença por perto. O amor não considera fraco quem estende a mão. Ao contrário, encontra nessa abertura a possibilidade de chegar mais fundo. Deus conhece a medida do nosso cansaço e não nos pede uma aparência invencível para permanecer conosco. Podemos rezar com pouca voz, sentar sem explicações, deixar que o afeto nos alcance. Talvez a vida recupere alguma leveza numa refeição partilhada, numa lembrança boa, num instante de riso que não estava previsto. O que parecia inteiramente pesado começa a encontrar intervalos. E nesses intervalos reconhecemos que ainda há movimento dentro de nós. A força humana tem essa delicadeza: cresce também quando é amparada. Não precisamos saber hoje como atravessaremos todos os dias que virão. Há uma coragem suficiente para este pequeno trecho, acompanhada de mãos que se aproximam e de uma esperança que aprende a caminhar devagar. 

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