“até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma coisa” (Sl 139.12).
O nível de superficialidade de conhecimento bíblico de alguns famosos do chamado mundo evangélico comparada à profundidade de uma lâmina de gilete em cima de uma mesa faz desta algo tão profundo como um abismo. Influenciados por uma cartilha marxista que impõe significado diferente às coisas, algumas lideranças evangélicas querem extirpar do cristianismo expressões e palavras sob a acusação de racismo, de desrespeito aos animais etc. Talvez o caso mais grotesco seja a polêmica envolvendo um antigo hino cristão, uma espécie de “denúncia” racista feita contra o seu refrão, que canta: “Alvo mais que a neve, Alvo mais que a neve! Sim, nesse sangue lavado, mais alvo que a neve eu estou” (Hino 269 do Hinário Novo Cântico). Há aqui, por parte desses que querem impor significado às coisas, o reconhecimento de que a exaltação da brancura feita no hino esconde conteúdo racista.
É impressionante como a determinação de tal “cartilha” moderna traz enorme emburrecimento, o desprezo dos verdadeiros significados, real doutrinação que pretende padronizar o entendimento e a interpretação de todas as coisas, uma nova forma de escravidão e dominação do conhecimento. Nas próprias ciências humanas, como, por exemplo, na antropologia, fala-se do significado das cores. Para um estruturalista, como Lévi-Strauss, há sentidos comuns nas culturas para algumas cores. Por exemplo: o vermelho está ligado ao sangue. De igual forma, em várias culturas o branco se liga à luz e o preto à escuridão. Não é culturalmente correto impor significados diferentes, releituras modernas, a conceitos formulados em ambientes totalmente diferentes.
Em linha com a antropologia, as Letras, especificando a linguística, afirma a necessidade de se observar o que é chamado de “contexto” e de “frames”, os não-ditos importantes para se interpretar um texto. Esses conceitos expressam a obrigação de se entender um texto à luz do arcabouço específico de conhecimento, tanto do autor como de seu público-alvo. É verdade que a moderna hermenêutica defendida por Paul Ricoeur, Jacques Derrida e Hans-Georg Gadamer, propõe o descompromisso com o texto, com aquilo que está escrito, destacando acima de tudo a experiência do leitor com o que foi escrito.
Dizendo isso de outra maneira, o mais importante quanto a um texto não é o que ele literalmente diz, mas aquilo que o leitor entendeu e tomou para si. Embora isso seja um claro relativismo da escrita, tal entendimento é o que está na raiz da hermenêutica, da interpretação, mesmo nas mais altas cortes da justiça brasileira, bem como, na filosofia que as influenciam. Esse total descompromisso com o correto entendimento de um texto tem dado essa “liberdade” para que supostos evangélicos façam afirmações das mais absurdas, como a vista na acusação contra o hino citado.
Nas Escrituras, a cor preta geralmente significa escuridão, a ausência da luz, ou seja, a ausência de conhecimento. Jesus é especificado como a “luz” do mundo, pois é ele quem revela Deus aos homens. Se você está à porta de um quarto escuro, antes de entrar, procura o interruptor, para que a luz “revele” o que há lá dentro. É melhor conhecer com olhos do que com a canela. Todo conhecimento que é possível ter de Deus sempre esteve, desde a Criação, na Segunda Pessoa da Trindade. Nesse contexto, a escuridão se liga ao mal, embora não seja seu sinônimo, como em quase todas as culturas, porque significa o desconhecimento do verdadeiro Deus.
É importante compreender, no verso epigrafado, que está no mesmo contexto de conhecimento, que a escuridão não é demonizada, apenas mostrada como algo que não impede o saber divino. Colocando isso de outra forma, ela não é essencialmente má, mas apenas o símbolo do desconhecimento. O mesmo Deus que criou a luz, também criou a escuridão. A luz existe para contrastar com as trevas. Lembremos que na noite, por mais estrelas que tenha, predomina a escuridão. Há glória e conhecimento de Deus na escuridão da noite: “Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite” (Sl 19.2). Reparem aqui a paridade, a equivalência, entre o claro dia e a noite escura. O dia não é mais importante do que a noite.
Pode ser que, em determinado contexto, a noite assuma significado pejorativo, por denotar, por exemplo, o tempo preferencial para se dormir (estar desatento) ou se realizar o que errado: “porquanto vós todos sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite, nem das trevas. Assim, pois, não durmamos como os demais; pelo contrário, vigiemos e sejamos sóbrios. Ora, os que dormem dormem de noite, e os que se embriagam é de noite que se embriagam” (1Ts 5.5-7). Não há cor “do diabo”, pois ele mesmo se manifesta como “anjo de luz” (2Co 11.14). Nesse caso, sua cor seria o branco.
Essas imposições de sentido às Escrituras manifestam ignorância e apostasia de alguns. Observada sua necessária coerência, levaria o cristão a identificar a berinjela ao mal, pois é preta. Pior ainda, uma das mais importantes significações das Escrituras, o vinho, associado à própria Santa Ceia, é feito a partir de uvas pretas. Que tempos difíceis esses em que vivemos, quando raciocínios falazes e mesmo loucos, que pretendem confundir os incautos, são ouvidos e aceitos como o destilar da verdadeira sabedoria. De fato, a verdade bíblica sempre foi e sempre será loucura para o mundo: “Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus” (1Co 1.18).
Não deixemos nos enganar! Reconheçamos a pregação do erro. Fiquemos sempre com as Escrituras e comamos berinjela: à milanesa, à parmegiana, com pimentão e cebola servida fria etc., acompanhada de suco de uva. Eles não são do diabo. Cantemos a plenos pulmões que Jesus nos fez alvos mais que a neve, pois fomos lavados e purificados no seu sangue. Tenha um excelente dia na presença de Deus
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