“Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto. Replicou-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta. Disse-lhe Jesus: Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras” (Jo 14.7-10).
As questões relativas às duas naturezas de Cristo, as chamadas “controvérsias cristológicas”, desde cedo surgiram na igreja e precisaram ser, urgentemente, tratadas pelos teólogos. No quinto século, talvez o auge do tema, o Concilio de Calcedônia, em 451, formulou a célebre frase: “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”. Significa dizer que Jesus tem duas naturezas distintas, divina e humana, mas que não se misturam, formando um único ente, tendo uma única consciência. O nestorianismo, uma heresia que surgiu quanto a essas naturezas, atribuía apenas a separação, como se houvesse em Cristo duas pessoas, uma divina e outro humana, resultando dois seres que trabalhavam como em cooperação, em sinergia, uma espécie de simbiose.
No entanto, sabemos que biblicamente, as duas naturezas são apresentadas como inseparáveis, um único “eu” vivendo simultaneamente como Deus e homem. Em sua humanidade, limitado à extensão de uma criatura; como Deus, igual ao Pai e ao Espírito, Deus infinito, onipotente, onisciente, onipresente, ilimitado, ser eterno, pré-existente quanto à existência que conhecemos, Criador do mundo físico e espiritual, ser santo, fonte de todo bem e virtude, único que tem poder para salvar. Nosso conhecimento de Deus está limitado ao tamanho de um homem. Não podemos compreender mais do que a humanidade nos permite. Daí olhar para o Cristo encarnado, sua humanidade, e conhecer nele também a divindade, pois Deus se revelou na natureza humana de Jesus, o exato tamanho de nosso conhecimento.
As duas naturezas de Cristo revelam um propósito implícito, de certa forma, oculto, da própria formação do homem. Quando o Deus Criador Triuno origina o ser humano, é dito que estabelece como padrão de sua criação o reflexo do próprio ser divino, isto é, sua imagem e semelhança. Essa expressão “imagem e semelhança” não se aplica à fisicalidade humana, pois Deus é espírito, não tem corpo. É uma forma da língua hebraica de estabelecer um superlativo, conceder intensidade à qualificação. Dessa forma, o que se quer dizer é que o homem é muito semelhante a Deus. Dentre as criaturas, nenhuma se assemelha mais à divindade que o homem. Para compreender esse conceito, podemos dizer que, se Deus fosse uma criatura, seria um homem. De fato, quando o Senhor assumiu lugar no mundo criado, nasceu como um homem. Essa “proximidade” também explica a tentação do diabo a Eva, convencendo-a de que ela poderia ser um deus para si mesma.
Na Criação, não havia ser mais poderoso e glorioso do que o homem. Ele estava apenas abaixo do Criador: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste: ovelhas e bois, todos, e também os animais do campo; as aves do céu, e os peixes do mar, e tudo o que percorre as sendas dos mares” (Sl 8.3-8). Entendemos assim, que aquele que não raciocina como nós, que não aprende ou chega a qualquer conclusão, pois todo o conhecimento lhe pertence e todas as coisas foram por ele determinadas, quando cria o homem como seu próprio reflexo é porque um dia haveria de ser homem também. Foi intencional dentro de um propósito maior.
O ser humano é um caminhante de dois mundos, pois tem alma e corpo. É o único ser que, sendo material se relaciona também com o espiritual, unindo em si a criação física e a invisível, esta habitada por anjos, arcanjo, serafins e querubins, quem sabe, outros seres espirituais. O que geralmente nos escapa à compreensão é que, quando Deus assume a natureza humana, passa a ter também um espírito humano. Quando morre o cristão autêntico em nossos dias, vai habitar apenas espiritualmente no céu, semelhante a um anjo. Essa essência espiritual que compõe a humanidade, reconhecida em Jesus desde o momento de sua concepção, o liga também à Criação invisível, ao mundo espiritual. Jesus permaneceu exatamente assim no intervalo entre sua morte e ressurreição.
Há na humanidade de Cristo algo que representa o mundo invisível, não apenas o físico. Por isso ele se assentou no trono do universo, e subjugou todos os poderes, não apenas físicos, mas também espirituais. Jesus glorificado governa a Criação visível e a invisível, a partir de sua própria essência. Assim unifica o governo da Criação material e espiritual com o governo soberano de Deus, pois também é Deus. Por isso, na consumação, todos os seres morais, aqueles capazes de compreender o bem, só terão vontades perfeitas e santas, em linha e em harmonia com a vontade divina. É importante dizer que a representatividade do mundo espiritual em Jesus não implica qualquer aspecto redentor quanto aos anjos que caíram. Jesus é homem, não anjo, bem como, a norma “sem derramamento de sangue não há remissão de pecados” não se aplica a anjos.
A grandeza da divindade em Cristo parece levar o ser humano a enfatizar a humanidade. É como se pudéssemos acessar com mais facilidade a natureza que temos em comum com ele. A prática de alguns cristãos é um tanto nestoriana, como se fosse possível isolar a humanidade de Jesus de sua divindade, para tratar apenas com o “homem”, deixando Deus de lado. Com isso, percebe-se a busca de alguém que seja mais favorável ao homem, que não veja o pecador como Deus, julgador e impositor de sua vontade, mas homem maleável e compreensível. Quer-se usar o poder de Deus através da humanidade de um Cristo um tanto “condescendente”, na verdade, um tanto indolente e permissivo, que nos entende e disposto a ter uma reação mais suave, voltada aos interesses humanos. Não contentes em esvaziar a divindade de Cristo, os homens passaram a divinizar a humanidade, exagerando aquilo que homens podem fazer em nome de Deus, tornando-os intercessores e milagreiros, não apenas enquanto estão vivos, mas mesmo após a morte.
Quando se fala que Deus se torna homem, ainda está enfatizada a ideia da divindade original, porém, quando se faz o percurso contrário, atribuir aura divina a homens, é a humanidade que se destaca. Tanto quando se quer selecionar apenas a humanidade de Cristo, como quando se diviniza o homem, criam-se religiões humanas, dentro dos limites da humanidade, compreendidas, controladas e determinadas por corações humanos. Apenas o Deus-homem Jesus Cristo, acima de toda compreensão humana, que revela a divindade em palavras e conhecimento adequados aos limites de nosso entendimento, manifesta o único Criador de todas as coisas, Deus verdadeiro. Mesmo esvaziando verdades eternas, para que caibam nos limites de nossa compreensão, ainda assim esbarramos em nossa limitação vez por outra, pois palavras de um mundo passageiro caído, materialidade decadente, não são apropriadas para falar do ser de Deus e de verdades eternas.
Louvemos a Deus por sua revelação em Cristo! Não queiramos enfatizar nem a humanidade nem a divindade, mas conheçamos a revelação do Deus verdadeiro no único Cristo, Deus-homem. Adore ao Senhor por ele ter nos revelado a divindade, algo que jamais poderíamos alcançar por nós mesmos. Jesus, a personificação do Éden e do Tabernáculo, do encontro entre Deus e o homem, em si mesmo sela essa união eternamente. Deus está ligado indissoluvelmente aos seus eleitos nas duas naturezas de Cristo. Tenha um excelente dia na presença do Senhor
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