“Então, perguntou Deus a Jonas: É razoável essa tua ira por causa da planta? Ele respondeu: É razoável a minha ira até à morte” (Jn 4.9).
Há pessoas que imaginam a paz como a convergência da existência à sua vontade. Estão em estado "normal" quando nada há que os contrarie. São pessoas que não sabem viver, pois parecem não considerar que a existência não reserva apenas aquilo que queremos ou gostamos. O mundo caído é um mundo de contradições. Não somente acontecem frequentemente coisas que trazem dor e sofrimento, como também ocorrem situações que julgamos meritoriamente injustas, situações nas quais acreditamos que nós, ou aquele que sofreu a perda ou o dano, não o mereciam.
Notemos, assim, que, por não estarem preparados para passar por reveses, muitos viverão descontrolados, irados, constantemente. Isso será necessariamente assim se não entenderem, como apontamos, a realidade desta existência. Quem se ira com facilidade não aprendeu que dores, problemas, dificuldades, morte, são comuns a esta vida. O verdadeiro crente não é otimista, nem pessimista, mas realista. Otimistas e pessimistas têm como referente sua própria vontade, acreditando que o que desejam certamente irá ou não irá acontecer, enquanto os realistas são os que consideram principalmente a vontade de Deus, que apenas ela se dará. Foi o Senhor quem já "costurou" em seus decretos eternos, dentre as infinitas possibilidades para cada vida, aquelas que inevitavelmente se darão.
Percebamos que um iracundo ou irascível, alguém que se ira com extrema facilidade, é assim pois centra a sua vontade como único referencial para a existência. Quer que seja necessariamente da forma como espera. Aí está o problema principal: a vontade.
O manso é aquele que é capaz de dobrar sua vontade. Aprendeu que não são seus desejos que dirigem a existência ou a inclinam, mas tão-somente os decretos de Deus. Compreendemos, então, outra lição quanto à ira: mostra ausência de humildade. O aspecto central, a virtude fundamental da vida cristã, é a humildade. A perda de controle por não ter a vontade realizada mostra a extrema arrogância humana de não suportar que a existência seja diferente de seus anseios, não admitindo que seus desejos e propósitos não se realizem.
Há outra situação quanto à ira que precisamos indicar: quando o objeto da ira é inadequado. O texto epigrafado indica exatamente isso. Jonas está irado por ter secado a planta que o Senhor havia feito crescer para lhe fazer sombra. O profeta tinha se assentado em uma colina próxima para fazer dali “camarote” a fim de assistir, de posição privilegiada, a destruição de Nínive. Reparemos que, quando Deus faz crescer a planta, Jonas entendeu que o Senhor lhe estava sendo favorável, não apenas no que dizia respeito ao seu maior conforto, livrando-o do sol escaldante, mas quanto ao seu desejo de ver a capital do Império Assírio destruída, o povo que assolou Israel, o reino do Norte, que agora ameaçava Judá. Assim, quando o Senhor fez secar a planta, o profeta, irado e amargurado, pediu para si a morte.
Isso se deu pois Jonas mal compreendeu o propósito do Senhor. O profeta tinha sido enviado para lá não para a conversão dos ninivitas. Eles, realmente, não foram convertidos. Apenas acreditaram nas ameaças feitas por Deus por meio de seu profeta a fim de evitar a destruição da cidade. Para se fazer parte do povo de Deus no Antigo Testamento eram necessárias a circuncisão, a guarda da Lei e idas anuais a Jerusalém para sacrificar. Nada disso se vê nos ninivitas, associado ao fato que, conquanto não tenham sido destruídos naquele momento, o foram posteriormente. Por isso, como diz Jesus, serão tomados como exemplo no juízo: ímpios que acreditaram na palavra profética de juízo, diferentes do povo de Deus na época de Jonas e dos judeus nos tempos de Cristo. O objeto de Deus ao enviar Jonas a Nínive foi dar uma preciosa lição ao seu povo. O profeta relataria sua experiência com os estrangeiros, mostrando que mesmo ímpios tomaram como certa e verdadeira a Palavra de Deus que anunciava o juízo, enquanto seu próprio povo não.
Deus haveria de poupar a grande cidade de Nínive a despeito do mal que haviam causado. Jonas não entendia o propósito do Senhor, esperando que o Senhor agisse por simples lógica humana. Da mesma forma que havia tomado o crescer sobrenatural da planta à disposição favorável do Senhor em agradar o desejo de seu coração de ver Nínive destruída, Jonas associou o secar da planta à não realização de sua vontade de ver, em escombros, aquele grande cidade. A morte da planta acabou por catalisar e concentrar toda a frustração, ira e amargura do profeta, uma espécie de símbolo de que sua vontade não seria realizada.
Contudo, o Senhor disseca a situação, separando as coisas, mostrando a desproporção, o paradoxo e a incoerência da análise de Jonas: ele ficou irado com a morte da planta, mas queria a morte de uma cidade de mais de cento e vinte mil pessoas que não conheciam o Deus verdadeiro. Percebemos aqui outro elemento do surgimento da ira descontrolada: quando o pecador se vê frustrado ao perceber que o Senhor não realizará a vingança que tanto almeja contra seu inimigo. É verdade que Deus nos vinga, mas a vingança divina busca objetivos e ocorre por meios diametralmente opostos àquilo que o homem pensa ser justo: “Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tg 1.20).
É importante saber que o que as Escrituras condenam é a ira humana, consequência de uma sabedoria animal e demoníaca (Tg 3.15), do falso entendimento e de equivocados conceitos de justiça. A vingança que o verdadeiro salvo mais deseja é ver seu inimigo transformado em irmão, convertido para a glória de seu Senhor, aquilo que foi completamente desconsiderado por Jonas: “e não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive, em que há mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda, e também muitos animais?” (Jn 4.11).
Existe a ira virtuosa, ordenada por Paulo aos efésios: “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo” (Ef 4:26,27). Ela é muito necessária nas ocasiões dignas de ira, quando a injustiça ou a heresia são afirmadas. É caracterizada por um intenso sentimento de indignação que não visa o mal daquele que cometeu a falta, não ocorre por meio de xingamentos ou descontroles. Pelo contrário, é dosada, dirigida, direcionada, não emocional e se extingue ao término da situação que a exigiu. É como a ira divina! O domínio próprio, última virtude destacada no fruto do Espírito, é também seu alvo, a soma de todas as características anteriores: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão” (Gl 5.22, 23).
Saibamos nos irar, a ira santa, impulso necessário para agir com firmeza e energia em situações dignas de ira, que envolvem causas divinas, não humanas. Não centremos arrogantemente nossa vontade, esperando que tudo e todos se modelem a ela. Saibamos administrar os reveses crendo, aceitando, querendo a vontade de Deus. Se focarmos o Cristo, não a nós mesmos, observando situações dignas de ira, que visam a glória de Deus não a vingança do homem, saberemos nos portar de forma adequada, sem atitudes desproporcionais de uma falsa justiça travestida de perfeita vingança. A ira virtuosa não visa divisão ou rompimento, mas santidade, unidade, a vivência da verdadeira igreja. Tenha um abençoado dia na companhia de Jesus
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