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terça-feira, 20 de outubro de 2026

CRESCER

Todos temos um ontem e uma quantidade infinita de registros. Os bons momentos devem ocupar maior espaço. Nossa infância marca nossa trajetória. Vejam: uma pessoa resolve assuntos difíceis, cuida da casa, assume compromissos e, ainda assim, pode se sentir muito pequena diante de uma voz mais dura. A idade que aparece nos documentos não conta tudo sobre aquilo que acontece por dentro. Levamos conosco modos antigos de procurar proteção, receber carinho e enfrentar o medo de decepcionar. Algumas lembranças são claras; outras aparecem em reações que custamos a compreender. A infância também permanece no gosto por uma comida, na alegria de uma brincadeira, na confiança aprendida com alguém que nos acolheu. Conhecer essas raízes ajuda a olhar para a própria história com mais amplitude. Nem tudo o que somos se explica pelo passado, mas há experiências que merecem ser escutadas para não seguirem atuando sem nossa atenção. Talvez reconheçamos a necessidade de agradar a qualquer custo ou a dificuldade de pedir aquilo de que precisamos. Essa percepção pode abrir um caminho de amadurecimento, feito com paciência e, quando necessário, com ajuda. Não precisamos resolver toda a história para começar a tratar melhor a nós mesmos e às pessoas próximas. Deus conhece a criança que fomos e a pessoa que continuamos nos tornando. Na oração, podemos apresentar as duas, com suas alegrias, faltas e perguntas. Há consolo em perceber que o amor não exige uma aparência adulta e segura o tempo inteiro. Ao mesmo tempo, crescer envolve assumir responsabilidade pelo modo como agimos hoje. Uma dor antiga pode explicar parte de uma reação sem tornar inevitável sua repetição. Podemos aprender a conversar, reparar um gesto e experimentar relações em que o afeto tenha outra qualidade. O passado vai encontrando lugar quando recebe compreensão, em vez de ser escondido ou transformado em destino. E o coração descobre que amadurecer também é oferecer à própria história a ternura de que ela ainda precisava. 

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