“A justiça será o cinto dos seus lombos, e a fidelidade, o cinto dos seus rins. O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, e as suas crias juntas se deitarão; o leão comerá palha como o boi. A criança de peito brincará sobre a toca da áspide, e o já desmamado meterá a mão na cova do basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Is 11.5-9).
Recentemente fizeram-me uma pergunta que não tive a oportunidade de responder devidamente: como será a nossa vida na eternidade? Concentrei-me em mostrar, primeiramente, o erro que geralmente se comete, ao pensar na vida eterna como se fosse eternamente no céu. Esse conceito é inteiramente antibíblico e pagão. Todas as religiões do mundo afirmam a existência de uma vida “desencarnada”, apenas espiritual, no além-túmulo. Geralmente, tal crença se estriba em um tipo de sensu comum equivocado de que o corpo é mau, atribuindo à matéria um status inferior ao espírito. É verdade que a realidade máxima é espiritual, não material. Nós vivemos pelo que não vemos, nossos alvos são espirituais, bem como, a verdade acima de todas: Deus é espírito. A essência de Deus é espiritual, não material. Portanto, a realidade pré-existente, a origem da própria existência como a conhecemos, a gênese de todas as coisas tem como essência aquilo que é espiritual.
Contudo, é necessário afirmar também que o mal é moral, é espiritual, não físico. O pecado sempre se origina na alma, não no corpo. Mesmo pecados que são eminentemente “físicos”, envoltos em sensações corporais, estas são traduzidas e assimiladas pela alma, transformando-se em paixões, vícios que acabam por dominá-la. Um corpo morto nada pode fazer. É a alma que leva o corpo a pecar. Se o corpo fosse pecaminoso, Jesus jamais poderia ter assumido um corpo corruptível como o nosso. Por isso, lembremo-nos que, conquanto o espiritual compartilhe a essência daquele que nunca foi criado, o homem foi gerado portador de duas essências: uma física e outra espiritual. Embora seja esta que governe aquela, isto é, o corpo é apenas o veículo do espírito para transitar no mundo físico, constituem um ser indivisível. Isso mesmo: indivisível!
Ora, então como que na morte o corpo e a alma se separam? Percebe-se, assim, a violência, a atrocidade, o inominável que significa a morte de um ser humano. O ser é como que rasgado ao meio, dividido em suas duas essências. Assim, não nos esqueçamos que a salvação é exatamente a eliminação dessa realidade da existência humana. Salvação é ressurreição! Antes da ressurreição ainda não se experimenta a plenitude da redenção. Aqueles que estão no céu hoje, gloriosos em espírito, permanecem mortos! Existem apenas espiritualmente! É na ressurreição que deixarão o status de “mortos” para estar novamente “vivos”, vivos eternamente. Entendamos, portanto, que a salvação levada a cabo por Cristo salva o corpo e a alma, não apenas esta, bem como, a vida eterna se dará nessa terra transformada, restaurada ao seu padrão edênico.
Para entendermos nossa vida no porvir, temos que, primeiramente, resgatar este entendimento: será uma realidade física, não apenas espiritual. Isso posto, não temos qualquer texto nas Escrituras que mostrem, com clareza, como se dará a vida plena na eternidade. Apocalipse mostra a realidade do estado intermediário, da alma dos crentes no céu, aguardando a ressurreição, e isso, de forma figurada. Talvez o único texto que mostre a realidade da plenitude física, pós-ressurreição final, seja o que se encontra epigrafado. Percebamos a ênfase na “justiça”, na ausência de qualquer possibilidade de praticar o mal. Como dizia Agostinho, é o non posse peccare, ou seja, não há qualquer possibilidade de o pecado entrar novamente no mundo.
É interessante que, geralmente, nos escapa algo que está ligado à necessidade da justiça, outra forma de dizer “santidade”. É comum pensarmos na necessidade da justiça ligando-a à essência santa e divina do Criador. No entanto, parece que a entendemos como uma mera “exigência”, não prestando atenção ao “motivo” da necessária justiça: relacionamento! A justiça que nos é exigida, aquela que foi alcançada para nós em Cristo, não é uma espécie de credencial, mas a capacidade para se relacionar com Deus e com todas as coisas santas que ele criou. Colocando isso de outra forma, a “vida” que Deus criou, não essa existência decadente, morte gerúndia que experimentamos agora, é eminentemente “relacional”. Deus criou todas as coisas e todos os seres santos, perfeitos, para se relacionarem com ele e entre si.
Reparemos que Isaías descreve a existência física pós-ressurreição com a convivência entre os animais e o relacionamento do ser humano com eles. A figura da criança exalta a segurança que haverá, pois frágil como é, não correrá nenhum perigo na presença de animais que facilmente causariam sua morte em nossa existência, pois não há mais morte, presa e predador. Um dos divertimentos da criança, no mundo perfeito, será brincar com o basilisco, ou seja, com a serpente, com todos os animais hoje chamados “selvagens”, assim como brinca com seu cãozinho, pois não há mais maldição do pecado, nem mesmo sobre a serpente. Todos poderão ser “pets”. Porém, precisamos perguntar: o texto é simplesmente figurativo ou realmente haverá crianças no mundo do porvir?
Geralmente se acredita que a “idade” da ressurreição será “a estatura de varão perfeito” de Jesus Cristo, a idade em que o corpo humano encontra sua exuberância e maturidade, por volta dos trinta anos. Haverá casamento no mundo pós-ressurreição? Como se dará o relacionamento entre os sexos no mundo restaurado é uma resposta difícil de se dar. Jesus dá uma explicação um tanto difícil para nós. Ele afirma categoricamente: “Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu” (Mt 22.30). Percebamos que, quando realmente somos como anjos é no estado intermediário, momento em que vivemos apenas espiritualmente no céu. Um espírito é assexuado.
Todavia, o ser humano foi criado distinto, macho e fêmea, com órgãos característicos e até uma constituição física diferente típica dos sexos. O próprio Cristo, quando ressuscitou, ressurgiu homem, não assexuado. A ressurreição física, com toda certeza, preservará a distinção sexual, assim como foi a ressurreição de Cristo. Portanto, como entender o que será? É exatamente esse o ponto. É possível que Jesus tenha dado uma resposta que esbarra nos limites de nossa compreensão. Ele afirma que a resposta está nas Escrituras (v. 29). No entanto, aparentemente, não podemos compreender o que será. Haverá homens e mulheres e comporão uma sociedade perfeita. Eles estarão juntos, vivendo em sociedade, guardando suas distinções sexuais. Parece ser uma realidade incompreensível para nós hoje.
O princípio que permanece e prevalece em tudo o que temos argumentado é que o mundo perfeito é aquele onde todos se relacionam na esfera da existência eterna e perfeita do próprio Criador. Isso nos leva, também, a compreender, que é estritamente a “justiça”, a santidade prática, aquilo que nos habilita aos relacionamentos. É exatamente sua falta que causa o mundo no qual existimos, cheio de divisões e atritos, não apenas entre os seres-humanos, mas também deles com a Criação e deles com o Criador. Pessoas santas sabem se relacionar, sendo sempre bênção uma para a outra. Santos sabem se relacionar com a Criação, vendo o Senhor estampado nas obras da Criação.
Todo que tem a justiça de Cristo foi introduzido à santa presença de Deus, perdida na queda, plenamente capaz de se relacionar com o invisível originador da própria existência. A justiça comportamental, fruto da verdadeira e transformadora fé, é o requisito da verdadeira vida, que é relacional. Notemos como que a solidão, o desejo de fazer as coisas sozinho, guardam em si o gérmen do pecado, da autonomia, da separação que significa morte. Relacionar-se devidamente confunde-se com a própria vida, a começar do santo relacionamento com Deus. É no ambiente da justiça e da santidade que devemos estabelecer relacionamentos com tudo e com todos. É assim que antecipamos a glória futura do mundo pós-ressurreição para o tempo presente. Tenha um excelente dia na presença do Senhor
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