Ai, que saudade da minha infância nos anos 80… Do tempo em que não existia boleto, o maior problema era o joelho ralado e a única fuga era da Havaiana. A gente brincava na rua até ouvir a mãe gritar o nome inteiro no portão. Tinha amarelinha, elástico, corda, esconde-esconde e bicicleta grande demais para as nossas pernas. Chinelo virava trave e caixa de papelão virava casa. A sede se resolvia na torneira, o calor com banho de mangueira e a fome com pão com manteiga, comido depressa para não perder a brincadeira. Na cozinha, o rádio ligado, o cheiro do feijão e alguém avisando: “Não belisca, que já vamos almoçar!”. A visita chegava sem avisar e sempre se arrumava mais um lugar à mesa. Como parecia mais fácil saber o que as pessoas sentiam… Quem estava bravo fazia cara feia. A briga às vezes terminava num puxão de cabelo, vinha a bronca e o anúncio: “Nunca mais sou sua amiga!”. No outro dia, a mesma voz no portão: “Pode sair para brincar?”. A gente aprendia que mentira tinha perna curta, que precisava pedir desculpas e que a palavra tinha valor. Não era tudo perfeito. Hoje entendo que havia preocupações que nossos pais carregavam enquanto a gente dormia. Mas como era bom poder dormir sem saber delas… Ah, se eu pudesse voltar! Não fugiria da escola, nem teria tanta pressa de crescer. Viveria minha infância trinta horas por dia. E, antes de qualquer brincadeira, correria para o colo do meu pai. Prestaria atenção na voz dele, no jeito de me chamar, no abraço que eu achava que teria para sempre. Não escolheria aniversário, Natal ou um dia de presente. Bastava uma tarde comum, com ele em casa. Porque a gente cresce e descobre que o que mais faz falta não são os brinquedos que perdeu. São as pessoas que estavam ali quando a gente brincava. Se eu pudesse voltar por uma hora, passaria essa hora abraçada ao meu pai. Hoje eu saberia o valor de cada segundo. E você, para onde iria e quem abraçaria primeiro?
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terça-feira, 20 de outubro de 2026
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