“Com eles aconteceu o que diz certo adágio verdadeiro: O cão voltou ao seu próprio vômito; e: A porca lavada voltou a revolver-se no lamaçal” (2 Pe 2.22).
Quando o apóstolo Pedro faz referência aos adágios que compõem este verso, está tratando do perigo da apostasia, algo que é pior do que o estado de impiedade que poderíamos dizer “comum”, ou seja, o que ainda não ouviu falar objetivamente de Cristo. Aqueles que já experimentaram o evangelho e o rejeitaram estão em estado pior do que os que sempre estiveram longe da Verdade, pois mesmo tendo ouvido e entendido o evangelho, vivido entre aqueles que verdadeiramente receberam essa maravilhosa graça salvadora, manifestam rebelião reafirmada, ratificando sua autonomia e a escolha por ser um deus para si mesmo. Conscientemente rejeitam a obra redentora de Cristo, desprezando a morte do Filho de Deus. Por isso, o apóstata sempre será alguém digno de juízo dobrado. Para demonstrar o porquê de isso acontecer, Pedro recorre aos provérbios.
Embora as Escrituras, por vezes, tomem o exemplo dos animais, o faz para humilhar e corrigir os seres humano, jamais significando que a vida animal, em sua integralidade, seja um exemplo a ser seguido. Animais não têm ética e moral cristãs, vida familiar compatível, muito menos conceitos de higiene. Uma das pouquíssimas coisas que um cristão pode concordar com o ateu Freud é sua afirmação que higiene é característica de culturas mais elevadas. É curioso que na lista de animais impuros para o judeu estão os cães e os porcos. Ambos os animais concorrem pela preferência do homem, o primeiro como seu “melhor amigo”, e o segundo, como seu “melhor prato”.
A humanização dos animais tem trazido o conceito de canibalismo novamente à tona na sociedade ocidental. O Brasil, inicialmente idílico e paradisíaco na visão dos descobridores, aparentemente edênico na nudez dos ameríndios e na exuberância das matas e dos animais, logo passou a ser conhecido como o país dos canibais, onde seus moradores originais viviam aterrorizados pelo medo de espíritos malignos habitantes das matas. A carne humana era consumida não apenas devido a crenças pagãs, o misticismo de se assumir a bravura e a coragem do guerreiro que era comido, mas por ser muito apreciada. Por isso, não se comia apenas guerreiros, mas também mulheres e crianças, às vezes, escolhendo partes do corpo em que se pretendia melhor desempenho.
O canibalismo entre os ameríndios era explicado pela pouca distância que separava, na mente deles, homens e animais. Concedia-se enorme respeito aos animais, mais do que isso, verdadeira pessoalidade. Nas viagens espirituais dos pajés, além dos eminentes mortos, havia também guias animais, como o próprio jaguar, ou seja, a onça-pintada. Se hoje animais são não apenas humanizados, mas transformaram-se até mesmo em família, e são comidos, por que não o ser humano? Não é sem motivo que casos de antropofagia tem começado a ser noticiados. Recentemente, um ator hollywoodiano foi acusado de praticar fetiches canibais. Há alguns anos, na Alemanha, também dois homens foram julgados por práticas canibais. Também no Brasil há registros atuais de tal abominação.
Devemos ter claramente estabelecido que, biblicamente, o homem não é um “animal racional”. Tal definição segue a filosofia naturalista, não as Escrituras. O Criador criou os animais e o homem no sexto dia de criação (Gn 1.25), mas não no mesmo momento. Segundo o que vemos em Eclesiastes, também os animais foram feitos do pó da terra, motivo pelo qual também devem ser enterradas suas carcaças (3.19, 20). Porém, a distinção e a importância do homem são tamanhas que sua criação é narrada não apenas separadamente dos animais (Gn 1.26ss), mas também uma segunda vez, à parte da narrativa da Criação (Gn 2.18ss). A repetição se justifica pelo propósito de mostrar a superior dignidade desse ser criado à imagem e semelhança de Deus, coisa que os animais jamais serão, com quem o Criador faria uma aliança. Homem e animais são seres completamente distintos, categorias totalmente incompatíveis.
A apostasia tratada por Pedro no texto mostra o retorno ao percurso da humanidade caída, mostrado por Paulo na Carta aos Romanos, no qual ela adora e serve à criatura, ao invés do Criador (Rm 1.24, 25). Do ponto de vista divino, o homem caído prefere viver como animais, tornados, de certa forma, inferior a eles. Ao divinizar animais, claramente se coloca como menor e servo. A lógica do pecado geralmente obedece a inversão, algo que é claramente notado na opção ímpia: a sujeição do homem ao animal. O animal irracional é assim alçado acima dos seres racionais. A utilização de Pedro do provérbio judaico indica essa semelhança da impureza animal com todo apóstata, com todos os que vivem alijados do verdadeiro Deus.
Aprendamos a beleza da santidade e da pureza! Além da diferença essencial entre tais seres, elas também separam homens de animais, não apenas quanto a práticas higiênicas e familiares, mas também figuradamente representam a opção do salvo por não pecar, a busca da higiene da alma. É curioso que uma sociedade ímpia se aproxime e se nivele cada vez mais aos animais, um atestado de seu consciente rebaixamento. Animais devem ser cuidados, mas tratados como animais, não como seres humano. O exagerado apego aos animais pode denunciar a transferência de uma afetividade jamais consumada, como a de casais sem filhos que tratam animais como se o fossem. Vivamos de tal forma a manifestar a nossa “imagem e semelhança” com o Criador, não com a criatura, glorificando-o com nossos atos, adorando e servindo unicamente ao Senhor. Não voltemos aos pecados de outrora! Tenhamos a dignidade dos filhos de Deus! Tenha um excelente dia na presença do Senhor
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