Convivo com a nostalgia pouco falada, mas o enigma mais banal da filosofia: Por que existe algo e não um nada imenso e absoluto?
Por que faço parte dessa alguma singularidade que povoa o universo? Por que tenho consciência? Por que sei?
Tomo distância de mim mesmo à procura de ser objetivo na resposta, mas não consigo. Me misturo ao que sei.
Por que tenho intuição de Deus? Por que ele se relevou exatamente como um nada – em um vento calmíssimo tão quieto que era incapaz de mover a chama de uma vela?
Também preciso me ver no meio da grande ausência divina para pensar na saudade que nutro dos vazios, das lacunas, dos parênteses.
Perco a segurança das certezas enquanto a vida me pede a coragem dos degredados, a resiliência dos exilados, a esperança dos desesperançados.
Deus é a ausência que tudo preenche. Só assim permanece a fortaleza de quem desce ladeira e não perde a altivez e dá cabeça erguida ao poeta que se comparou a um fósforo riscado - ele arrancou poesia da própria insignificância.
Na experiência de louvar o nada, me esvazio para ser devoto diante do altar onde adoram os renegados da terra.
Um dia eu disse que desejava seguir a Jesus. Ele respondeu: “Negue-se a si mesmo - ele sugeriu que eu também me tornasse nada.
Eu respondi: “Sim, esse é o desejo que me anima e me perturba, pois ainda não avaliei todas as implicações de que está disposto a perder a vida por amor a quem diminuiu até a morte - essa é minha prece pela manhã.
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