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sexta-feira, 10 de julho de 2026

MENINO


“Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino” (1 Co 13.11).

É comum ouvirmos que há uma criança dentro de todos nós. Algumas coisas típicas do estado infantil parecem continuar latentes naqueles que já acumulam algumas décadas de vida. As brincadeiras comuns em pessoas mais expansivas e a competitividade talvez sejam resquícios da infância que permanece. Estes aspectos, vividos dentro de limites próprios, não representarão problema. O que é pernicioso é o que podemos chamar de “infantilidades”. Estas se dão quando não se abandona a forma de pensamento e, consequentemente, de procedimento infantis. Elas podem se manifestar na vida adulta por meio de algumas tendências que são em si pecaminosas. A primeira delas é a ingenuidade. 

A criança é ingênua. É curioso que geralmente se percebe na ingenuidade algum aspecto de “pureza”. Daí ligá-la à criança. Certamente ambas as compreensões estão erradas. Ingenuidade não é pureza, muito menos, virtude. Trata-se de uma forma de estultícia, de tolice, falta de sabedoria travestida de suposta inocência. O ingênuo, por sua falta de esperteza, permite-se enganar constantemente. Talvez até mesmo tente se proteger usando a ingenuidade como escudo, para se apresentar como “inocente” e “vítima” dos atos alheios, nunca como “culpado” por sua ingenuidade. 

A sociedade dos homens é um lugar de perigos de várias espécies, comparada a uma selva cheia de riscos mortais. Não por acaso, nosso Senhor exortou seus discípulos exatamente à “ética da floresta” como forma de poderem prevalecer diante da maldade. Afirmou: “Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas” (Mt 10.16).

Embora as ovelhas sejam tidas como animais descuidados e extremamente vulneráveis, sua figura aplicada ao crente ressalta sua condição com respeito ao lobo. Com isso destaca-se o perigo constante ao qual o crente está exposto no mundo, não alguma tolice inata e, por isso, desculpável, característica de todo nascido de Deus. Muito pelo contrário! Por isso, após mostrar que os crentes estão cercados por “predadores” no mundo, ordena que sejam astutos como as serpentes e simples como as pombas. Essas, sim, são virtudes.

A astúcia é necessária para percebermos os contextos nos quais estamos inseridos, o rumo das coisas, se é viável a mim como crente estar em determinados lugares, praticar aquilo que está se desenhando à minha para frente, para não sermos enredados facilmente pelo mal. No entanto, se a astúcia se manifestar sozinha, inevitavelmente levará à malícia, isto é, à rapidez para concluir o mal em tudo e todos.

Há crentes que, para não serem pegos de surpresa, querem antecipar atos e acontecimentos por pura sagacidade e perspicácia. Como resultado, sempre veem e imaginam más intenções em tudo aquilo que as pessoas dizem ou fazem. Para fugir da malícia, dessa celeridade para imaginar o mal, é necessária a “simplicidade”. Como já ficou claro, não se trata de ingenuidade, mas de “pensamentos misericordiosos”. Funciona como uma espécie de freio à malícia, algo típico daquele que é “limpo de coração”, uma das bem-aventuranças com as quais Jesus inaugura o Sermão do Monte.

A mente do nascido de Deus não deve ter essa perspicácia maligna, rapidez para imaginar a maldade, pois isso o identifica com o mal. Os elos se manifestam nos apegos. É estranho, por exemplo, igrejas que parecem preferir falar mais do diabo que de Cristo, ou, crentes que falam muito mais do seu passado de impiedade do que do seu presente regenerado e santo. Alguma coisa está errada! Aparentemente há ainda alguma ligação ou pré-disposição. A astúcia e a simplicidade, a esperteza latente e a misericórdia nos pensamentos, concedem o necessário equilíbrio à mente cristã.

A irresponsabilidade e a inconsequências são outras características da mente e do procedimento infantis, mas que mesmo nas crianças não podem ser aceitas. É interessante como os crentes parecem desculpar as crianças de seus erros. É quase como se o pecado praticado pela criança fosse aceitável, não se constituísse pecado, não se revestisse de qualquer malignidade e exigisse a devida reprovação e correção. É verdade que a criança é incapaz de uma responsabilidade plena, de perceber claramente as consequências de seus atos. 

Eis o motivo por que há cerimônias de maioridade em todas as culturas, geralmente ligadas ao privilégio do casamento e à capacidade para guerra. Em nossa sociedade, embora já não haja ritos de maioridade, há especificada uma maioridade civil. Julga-se que até tal idade a criança não tem ainda desenvolvida a habilidade plena da responsabilidade. Mesmo nas Escrituras havia a maioridade do judeu, que começava aos treze anos e se completava aos trinta. Foi exatamente por isso que Jesus esperou esta idade para iniciar seu ministério.

Todavia, o fato de as sociedades traçarem divisas claras entra a infância e a fase adulta não significa, de forma alguma, que os erros cometidos na infância deixavam de ser reconhecidos como tais por terem sido perpetrados por crianças. A criança deve ser repreendida todas as vezes que fizer aquilo que é errado, para que a reprovação sempre a lembre daquilo que não deve fazer.

Se pecados são pecados mesmo para as crianças, não podendo ser simplesmente anulados devido à pouca idade, o que se dirá de adultos infantilizados que se mostram irresponsáveis e inconsequentes! A infância é importante para a criança. Ela deve ter seu tempo de imaginação e fantasias, de brincadeiras sadias, pois isso é indispensável para o seu desenvolvimento. Ela projetará sua idade adulta, antecipando pelas brincadeiras a vida profissional e familiar, bem como, coragem e tenacidade tão preciosas na resolução de problemas futuros. No entanto, com a maturidade vem a realidade da vida, as funções no reino, na igreja, questões profissionais e familiares, deixando necessariamente o onírico e a fantasia para trás.

Abandonemos, portanto, as coisas de menino. Ajamos como filhos de Deus maduros, adultos, neste mundo. Não se esconda atrás de coisas típicas da infância. Deixe de lado toda ingenuidade, irresponsabilidade e inconsequências. Quando nosso Senhor nos comparou às crianças, afirmando que deveríamos ser como elas (Mt 18.3), certamente não estava indicando nenhum desses erros, mas a necessária dependência de Deus! A criança não é pura, não é inocente, mas uma “sementinha do mal”, um pecador em miniatura. Contudo, mesmo ela sabe que não pode existir sozinha e que precisa do adulto para sobreviver. Essa é sua virtude: a dependência! Vivamos a experiência da maturidade cristã, na fé, no intelecto, nos relacionamentos, sempre na dependência do Senhor. Tenha um excelente dia na maturidade cristã na presença de Cristo

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