“Agrada-te do Senhor, e ele satisfará os desejos do teu coração” (Sl 37.4).
É estranho que tudo o que diga respeito a Deus e sua Palavra se torne de alguma forma deturpado na experiência do pecador, mesmo o redimido. Quando o homem pensa em "agradar ao Senhor" concebe tal ideia em um formato pagão, não conforme as Escrituras cristãs. A teologia pagã tem sempre o mesmo modelo: tem como centro o homem. Dessa forma, busca-se o agrado das divindades não simplesmente porque é o certo, mas para as manipular segundo o coração daqueles que as adoram. Note-se que sempre será uma religião de obras, pelo simples fato de que jamais se conseguirá impressionar o Deus verdadeiro com obra nenhuma.
Toda tentativa de se manipular o único Senhor necessariamente se dará por meio de alguma barganha, alguma troca que o crente tolamente julga ser “vantajosa” para Deus. É importante reparar como que tal ideia já é incompatível com o conhecimento do eterno Deus, Criador de todas as coisas. Quem genuinamente conhece o Senhor sabe que ele de nada precisa e somos nós que dependemos dele, nunca o contrário. A ideia de dar algo ao Senhor como uma espécie de troca é totalmente incompatível quando se considera alguém que de nada precisa, a quem todas as coisas pertencem.
A conclusão a que se chega é que, agradar a Deus, na perspectiva de um ímpio, significa empenhar todos os esforços para que o Senhor se torne favorável à vontade humana, modelando-se a ela. Percebe-se, assim, o impulso do pecado: transgredir tudo o que é santo e correto. Procura modificar mesmo a posição do homem diante de Deus, retirando Deus do centro, substituindo-o pelo homem e sua vontade. Deus passa a ser simplesmente o meio de se alcançar os desejos do coração humano. Mesmo o crente, por vezes, premido por algum sofrimento ou impulsionado por algum desejo, mostra esse tipo de comportamento.
Agradar ao Senhor, nas Escrituras, vai na contramão daquilo que naturalmente pensa o pecador. Enquanto este acredita que pode convencer Deus de sua vontade, o crente verdadeiro sabe que só é possível agradar ao Senhor se a vontade dele e a sua glória forem o centro e o objetivo. Reparemos o quanto isso dista do impulso natural do coração humano.
Então, o que é necessário ser considerado é: se é a vontade de Deus que deve imperar no coração do verdadeiro convertido, quais serão os desejos a serem satisfeitos pelo Senhor em seu coração? O que mais quer um genuíno crente? Quer ver a glória do Senhor manifesta em todo o mundo! Quer que o nome de Deus seja santificado, que o seu reino se estabeleça plenamente sobre a terra, que a vontade divina seja tudo o que se perceba em toda Criação, visível e invisível. O que mais deseja o adorador é trabalhador para a glória de Cristo. Não vive para si, mas para o Senhor. Todas as suas motivações se dão na perspectiva da glória do Salvador.
Não pode haver qualquer desejo na alma de um convertido que não tenha como resultado a manifestação da glória de Deus: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua misericórdia e da tua fidelidade” (Sl 115:1). O que expressa aqui o salmista, é que mesmo a própria salvação, todos os favores do Senhor que ocorrem no ambiente da Aliança, devem visar a glória de Deus, não a nossa. Esse desejo expressa o conhecimento mais profundo do Salvador, pois nossa salvação é partilhar da glória de Deus em Cristo, isto é, voltar a expressar a glória do Senhor em nossa vida assim como era no início.
A glória de Deus não se manifesta à parte de sua presença. Quando se fala de um crente verdadeiro mostrar em si a glória de Cristo, implica afirmar a presença de Jesus e de seu Santo Espírito nele, a retomada do relacionamento magnífico e incomparável do pecador redimido com o Criador. O desejo incontido do coração de todo salvo é viver para a glória do Deus Trino, que se mostrou mais do que Criador, Redentor, Restaurador de todas as coisas, anulando todos os efeitos do pecado.
Há pouco mais de um século, Nietzsche anunciou a morte de Deus. Desde então, a sociedade vem morrendo para Deus, afastando-se mais e mais dele, centrando sempre sua vontade pecaminosa a despeito das mais perniciosas, perversas e trágicas consequências. A humanidade passou a chamar de “liberdade” revoltar-se contra tudo o que se chama bem e justiça, renunciando a própria vida. A grande maioria dos chamados crentes hodiernos chamam de vida cristã a tentativa de extorquir do Senhor todos os desejos do coração humano. Não estão dispostos a servir Deus, a pregar e testemunhar Cristo. Acreditam que ter meramente uma vida com padrões morais aprovados trará a confirmação de suas vontades diante de Deus.
Voltemos a nos alegrar na vontade de Deus, renunciando a nossa, crendo que o Senhor é a nossa alegria. Dediquemo-nos inteiramente ao nosso relacionamento com Cristo. Isso é o que mais importa. Essa é a vontade que está no centro do coração do verdadeiro nascido de Deus. Tenha um excelente dia tendo prazer na vontade do Senhor
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